ACENTOTÓNICO: Estas boladas já começam a enjoar! - Júlio Manjate - (Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

O BULA-bula do nosso último domingo quase me tirou as palavras da boca, ao colocar o dedo na ferida que é o funcionamento das célebres Unidades Gestoras de Aquisições (UGEAS), elas que funcionam em quase todas instituições públicas, a nível central e provincial, por força do Decreto 5/2016, de 3 de Novembro, que regula a Contratação de Empreitadas de Obras Públicas, Fornecimento de Bens e Prestação de Serviços ao Estado.

O bula-bula só não me tirou as palavras da boca porque, de facto, há muito que se diga destas UGEAS. Na verdade, eu já vinha com o “saco cheio” de tanto ver anúncios escandalosos sobre o funcionamento destas unidades, que agora quase se especializam em “boladas” feitas à luz do dia, sem o mínimo pudor.

O artigo 3, do aludido regulamento, define como princípios a observar na aplicação do instrumento, a legalidade, razoabilidade, imparcialidade, proporcionalidade e outros aplicáveis no âmbito do direito público, como sejam, por exemplo, a transparência, responsabilidade, boa gestão financeira, honestidade e a boa-fé.

Ora, para espanto colectivo, o que temos visto desfilar nos jornais, são anúncios de adjudicação de pretensas empreitadas de fornecimento de bens e serviços ao Estado, tais que nos chamam à atenção pela maneira grosseira como atropelam alguns destes princípios, denunciando a gravidade de um problema que, definitivamente, não pode continuar a ser tratado de ânimo leve.

Este, compatriotas, é um crime contra o Estado, um crime contra todos nós!

Com tanta insensatez na contratação de alguns “bens e serviços” para o Estado, fica-se com a impressão de que se está perante uma acção deliberada e concertada de indivíduos apostados em defraudar o Estado e em pôr em causa a nossa seriedade e inteligência colectiva.

É assim como nos sentimos, desrespeitados e desqualificados, quando vemos instituições a promover práticas que configuram um saque ao Estado; quando estas instituições pretendem que os contribuintes ratifiquem o pagamento de dezenas de milhões de meticais por um bem ou serviço que pode estar disponível a menos de metade de preço.

Confesso que por vezes me escandaliza a vulgaridade com que alguns actos do Estado são expostos na praça pública, nomeadamente nas plataformas das redes sociais, onde não raras vezes também circulam as famigeradas fake news por vezes tão irrepreensivelmente bem escritas que se confundem com a verdade. Todavia, tenho cada vez mais motivos para aceitar que alguns deles sejam “males que vêm por bem”, porque entendo que está na hora de atacarmos estes problemas de frente, antes que deixem o Estado inteiro sem raízes para se manter de pé. Na minha opinião, atacar esses problemas de frente, começa exactamente por denunciá-los, por expô-los a julgamento das massas.

Definitivamente, a acção predadora de algumas UGEAS deve ser estancada, com urgência!  Não concordo que continuem a outorgar-se o direito de “fazer e desfazer”, em plena à luz do dia, como se os estúpidos fôssemos nós, a maioria!

É preciso parar com estas incursões ao erário público!

Sendo ou não um fenómeno característico do final de mandatos, é preciso que o Estado coloque a sua mão dura sobre os mentores, porque ele tem responsabilidade com o futuro. É preciso lembrar que há mais vida para além deste mandato, e não se pode permitir que o Estado seja destratado como se o mundo estivesse nos seus derradeiros dias.

É difícil disfarçar a dor que causa saber, por exemplo, que se investem dezenas de milhões de meticais para o aluguer de uma sala de reuniões, ou que para se reparar uma viatura se destinam tantos milhões de meticais quantos seriam necessários para adquirir uma nova. É impossível camuflar o desconforto que causa saber que o pouco dinheiro que o Estado produz, está a ser gasto de forma irresponsável e criminosa.

Como diriam os Rockfeller, “… assim já não está a dar…”!

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Limpopo: Se recordar é viver...(Concl.) - César Langa - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

 

OS primeiros dias de convívio com a realidade de Malehice foram de mera ilusão, levando-me a pensar que tudo era tão lindo quanto parecia, quando, na verdade, havia muito espinho pela frente. Primeiro, quando desembarquei do autocarro das Oliveiras Transportes e Turismo, do famoso Xitonyane, conduzido pelo já finado Bila, vi postes de energia no recinto que contempla escola, igreja e residências dos professores. Fiquei feliz, pois pensei que, apesar de ser bem distante das cidadesdeChibuto e Xai-Xai, em Malehice “havia energia eléctrica”. Era mera ilusão! Quando a noite cobriu a aldeia pela sua sombra, só me sobrou uma lamparina para iluminar o quarto que partilhei com o professor Fernando Frazão Chirrime, que leccionava a disciplina de Desenho.

Aqueles postes haviam sido colocados no tempo colonial, nos tempos do cónego Boavista, para distribuir a corrente eléctrica produzida por um gerador. Entretanto, depois da Independência, durante o período em que a profanação propiciou o vandalismo nas igrejas, sob a alegação da inexistência de Deus, outras infra-estruturas não escaparam à violência, incluindo a instalação eléctrica e o respectivo grupo gerador.  E tudo piorou porque o saber fazer era, simplesmente, escasso, entre as gentes locais.

Nas residências, as casas de banho estavam lá, mas sem água a jorrar nas torneiras, mesmo havendo canalização. A higiene pessoal era feita na zona baixa, onde o agrónomo Julião Mucavele orientava os alunos para a produção de hortícolas, para o melhoramento da dieta dos alunos do internato. Ou seja, para se tomar um banho era necessário descer-se para a “piscina” e dar um mergulho, numa sessão de nudismo gratuito para os transeuntes nos caminhos das proximidades, sob grande exposição a diversas enfermidades, lideradas por esquistossomose(bilhaziose) e seguidas por malária, dada a quantidade de mosquitos que habitam no sítio. Era outro desengano!

Na mesma semana em que cheguei, houve um jantar de despedida do director Lourenço Matsumane. Foi uma grande festa, à luz de candeeiros a petróleo de iluminação. As bebidas eram, abundantemente Ngovu (feito de farelo de milho), xitxitximelane (feito de cana de açúcar), que vinham em grandes recipientes de 210 litros cada, para além de “ten” (aguardente de caju), sem um refrigerante sequer para os não consumidores das marcas referidas. O trio de caloiros (Saveca, Marcolino e eu) não alinhou nestas bebidas, ainda que o professor Cristiano Adriano (já veterano, na altura) tenha feito uma aposta, em tom cómico, dizendo que aquela “frescura” tinha dias contados, pois só havíamos acabado de chegar à terra onde se consome “ten” por excelência. A ideia com que fiquei foi que a carne de vaca era um prato regular, mas cai numa outra falsa realidade. O quotidiano variava entre ervilha e sardinha, com xima amarela, generosamente doados pelo Programa Mundial da Alimentação (PMA).

Perante este cardápio, os 19 jovens que constituíam o corpo docente, partilhavam a grande mesa da “comuna” (é assim que se chamava a nossa sala de refeições), entre piadas, ofensas e outras mais conversas. E num desses dias, antes mesmo de me habituar, procurei uma esquina e chorei que nem uma criança, para depois erguer a cabeça, pois só a mim, apenas a mim e somente a mim cabia tornar os momentos cinzentos e verdadeiramente coloridos. E valeu a pena.

São alguns episódios que achei que valia a pena partilhar, principalmente com a juventude de hoje, que não consegue nem imaginar como uma família vivia sem um televisor. Outros momentos virão, à posteriori, pois tive a sugestão de os sistematizar em forma de livro, através de amigos que, comigo, gostam de jogar limpo(po).  

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Sigarowane: Estava a sonhar - Djenguenyenye Ndlovu

 

Depois que me abandonou, por um período relativamente longo, de novo a paixão pelo amanho da terra. Pelo seu cheiro e do que dela se extrai. Talvez tivesse sido cedo ou motivada por circunstâncias que não tinham nada compaixões, mas sim, escape de algo menos bom que interpretei como sendo uma repentina paixão pelo amanho da terra. Não importa, hoje, o que tenha sido. Importa, sim, que esses momentos foram vividos com emoção tamanha que hoje alimenta esta avassaladora paixão pelo cheiro da terra que subitamente me toma. Que de novo me abraça, me inunda com o seu irresistível perfume.

Não sei o que me espera em Mafavuca, lugar que durante anos saciou essa minha paixão. Há pouco mais de três anos que não ponho lá os pés, recebendo, de tempos a tempos, notícias, sobretudo de falta de ração para os animais, que não sei dos números se não aqueles que o Munhame nos canta ao telefone. Da multa a pagar-se ao dono do campo em que um porco tresmalhado foi se alimentar de algumas hortaliças e couves em números de comprar, no mínimo, três leitões. De comprar mesmo um porco do tamanho do que invadiu o campo do dono. Mas fazer o quê mesmo! Há notícias também quando os ordenados tardam a chegar por mera distracção de quem portal é responsável. Mas é para lá que me dirijo cheio de interrogações, mas bem determinado a voltar a tocar a terra no lançar nela a semente, de alho ou de batata reno, de outra cultura qualquer que o solo não rejeita. De tocá-la no abrir das valas, com a enxada de cabo comprido, para a água passar e tornar os solos fecundos. Pode se dizer disso rega.

Não me lembro de quando foi a última vez que de lá me trouxeram manga, laranja e papaia. Coisas que sempre abundaram a nível de serem comercializadas. Então, de voltar ao abraço às plantas e devolvê-las o carinho que as ponha em sorrisos para a minha alegria, para a realização da minha paixão.

Estou apaixonado.

Então pressiono mais o acelerador deste meu velho Land Rover. Obedece e vou ganhando mais espaço em menos tempo e daqui da pedreira, consigo divisar Mafavuca e a minha palhota, nunca dormida, feita de blocos e coberta de zinco barato. Em pouco tempo estou lá. Não antes de parar na barraca do Rui, centro de encontros e fofocas, para me actualizar sobre os acontecimentos últimos da zona e resistir a uma “txilar” que se mostra altamente sedutora. Agora, deste lado é tudo dedicado à terra e vou namorá-la, e bem, antes que nos casemos, como aconteceu com os outros. Não resisto, no entanto, a degustar um pedaço de leitão, que mais tarde soube comprado no meu sítio, mas do qual não soube de tostão nenhum. Acontece, sobretudo quando ausências prolongadas que chegam a levar capatazes a transformarem-se em donos. Importa agora é retomar a condição de dono. De controlador presente.

Já na picada que vai ao sítio, mulheres carregadas de cebolas e repolhos em quantidades de comercialização a saírem do meu espaço. Saudam-me alegremente. Retribuo-as o gesto e continuo com a marcha. O portão nunca chegou a ser montado por isso meti o carro sem a necessidade de buzinar para me abrirem coisa nenhuma. Mais mulheres carregadas de produtos diversos vinham subindo da parte baixa do campo. Atrás delas, vinha o Munhame todo feliz, que o dia lhe tinha corrido como nunca tinha sonhado, mas toda a satisfação se esfumou quando viu o velho Land Rover, todo ele altivo, bem ao lado da palhota, onde sempre ficou. Falava eu dos preços com as mulheres que já estavam comigo e diziam-nos altos, mas que a qualidade era boa.

Quase que a transpirar e assim ofegante, Munhame abeirou-se de mim a medo. Fingi ignorar os acontecimentos e lhe perguntei pelo vinho a tempo guardado. Mais uma machadada: tinha bebido todo o conteúdo das seis garrafas. O que havia mais a fazer se não gargalhar? Então gargalhei e ele tentou esboçar um sorriso que morreu de imediato.

Estava a sonhar.

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À LUPA: Qual é o problema de usar as pontes pedonais?  LÁZARO MANHIÇA - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

 

FIZ esforço para evitar trazer hoje o assunto sobre os acidentes de viação que podem ser evitados, particularmente na Estrada Nacional número Quatro (EN4). Porém, o que se me oferece testemunhar nesta rodovia, que liga as cidades de Maputo e Matola, não deixa ficar calado. Tira-me sono. Não percebo as razões que levam as pessoas que vivem ao longo desta via a continuar a colocar, desnecessariamente, a sua vida em risco. Não entendo igualmente a aparente inacção por parte dos vários actores que têm algo a dizer para que se poupem vidas humanas.

Por isso, vou batendo nesta mesma tecla porque, como diz o ditado popular, “água mole, pedra dura, bate tanto até que fura”. Assim, acredito que mais dias, menos dias, uma acção enérgica será levada a cabo para a mudança de mentalidade, por parte dos peões, sobretudo, que são o objecto da minha preocupação nestas linhas.

Na semana passada, dediquei este espaço a um acidente de viação ocorrido debaixo da ponte pedonal, localizado na zona da Volvo, a primeira no sentido Maputo-Matola, porque o peão, residente na área, decidiu desafiar as viaturas que tanto num como noutro sentido não davam espaço para travessia de peões, acabando por ser atropelado.

No mesmo lugar, já este fim-de-semana, assisti a um episódio que, por sorte, não terminou em atropelamento. Uma jovem, que nos meus cálculos podia ter uma idade não superior a 30 anos, segurava, numa mão, um plástico contendo produtos possivelmente acabados de adquirir numa das barracas ali existentes, e noutra, uma menor, na linha de separação central, à espera de melhor oportunidade para atravessar as restantes faixas de rodagem. Com a ponte pedonal ali ao lado.

Porque o fluxo de viaturas não cessava, a criança, assustada, acabou por entrar em pânico e, na sua inocência, tentou fazer luta com a mãe e, aos gritos, para se livrar do ambiente de vaivém de viaturas, possivelmente pouco familiar. E, por um triz, nalgum momento, a menor se “libertava” da poderosa mão da mulher, já também aflita e com poucas soluções na área em que se encontrava. Mais um pouco, o pior podia ter acontecido. A escassos metros da ponte pedonal que esta mulher poderia muito bem ter usado e sem correr o risco de vida. Dela e daquela inocente. Espero que a mulher tenha aprendido da amarga experiência. 

Hoje também questiono: afinal qual é o problema de usar as pontes pedonais colocadas ao longo da via? Quanto a mim, a resposta ou a solução deste problema pode passar por um trabalho que envolvesse a família, a liderança comunitária, os religiosos e as autoridades do pelouro. Uma campanha de educação, feita de forma permanente, envolvendo estas instituições sociais pode, se calhar, fazer diferença e provocar mudanças na mentalidade das pessoas.

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NO Búzi, uma mãe conseguiu salvar os seus cinco filhos, ao se empoleirar numa árvore, para onde ia puxando as crianças uma por uma.

A violência das águas era enorme. Os ramos da árvore já eram escassos e debilitados para suportar tanta gente. O marido da senhora, idoso, pesado e doentio, não tinha onde se refugiar. Por duas razões: Devido ao seu peso a mulher não conseguia iça-lo para os ramos mais altos da árvore. Por outro lado, se conseguisse puxar o marido para a árvore, corriam o risco de partir os ramos e perder as crianças, que já se encontravam em relativa segurança.

A mulher não podia fazer nada. O homem limitou-se a abraçar a árvore, suportando o embate dos detritos que eram arrastados pela corrente, à espera que algum milagre acontecesse e salvasse, ao menos, os filhos e mulher. A maioria das pessoas estava no terraço da casa mais alta que ainda se aguentava no centro da vila. Ele, tão debilitado que estava, não tinha condições para nadar e chegar até lá. Limitava-se apenas a gritar pelo socorro, embora o barulho das ondas lamacentas não permitisse que a sua voz chegasse tão longe.

Felizmente, as equipas de salvamento já estavam a circular em Búzi. Um helicóptero descobriu a mulher e os seus cinco filhos pendurados nos ramos frágeis da árvore, e tratou de os recolher e transporta-los directamente para a cidade da Beira.

No centro de acolhimento, aquela heróica mulher encontrou-se com os seus dois enteados, que já viviam na capital da província, mas tinham igualmente perdido quase tudo devido ao ciclone Idai. Contou-lhes como escapara da fúria das águas, concluindo que só conseguira salvar as cinco crianças. Disse que tentou salvar o marido, o pai deles, mas não conseguiu, pelo que não sabia se tinha recebido socorro ou não.

Os dois rapazes, depois de ouvir o relato, ficaram furiosos a tal ponto que, começaram a espancar a madrasta sem dó nem piedade. Acusavam-na de ter sido negligente e impiedosa por não ter salvado o pai. Ela tinha que cuidar daquele homem como cuidara das cinco crianças.

Foi preciso uma intervenção de outras pessoas presentes naquele local de acolhimento, para acalmar a fúria dos dois jovens, e explicar que não deviam menosprezar o esforço que aquela mãe tinha feito para salvar a família. Ela não podia fazer nada fora das suas capacidades humanas. O ciclone Idai apanhou toda gente de surpresa. Ninguém sabia que a situação iria atingir aquelas proporções.

Helicópteros e barcos continuavam a circular no Búzi. Volvidas cerca de três horas de tempo, o nosso homem continuava agarrado firmemente ao tronco da árvore onde se refugiara a mulher e os filhos. Já estava a cair no desespero, ao ver que toda a vila estava completamente engolida pelas águas. Ondas lamacentas e cheias de resíduos sólidos, zurziam no seu pescoço, enquanto o velho lutava com todas as forças para que a água não lhe cobrisse a cabeça. Seria o fim.

Um dos barcos de salvamento, que esquadrinhava todas as árvores e canaviais meio submersas, conseguiu identificar aquela figura humana, quase inanimada, devido ao extremo cansaço, abraçada a uma árvore. De imediato aproximou-se, e os homens de resgate conseguiram salvar a vida daquele idoso. Dado que a violência das águas e da chuva não davam indícios de amainar, todas as pessoas resgatadas no Búzi, eram transportadas para a cidade da Beira. A mesma sorte coube ao nosso idoso doentio, que finalmente, voltou ao convívio familiar.

Para a mulher e os filhos menores, ele parecia um Cristo ressuscitado. Para os dois matulões violentos, o peso da vergonha, quiçá, uma lição de vida.

Forte abraço.

 Sauzande Jeque

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