Timbilando: O abandono definitivo da terra de origem  (Alfredo Dacala-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

 

 

DISSEMOS semana passada que o nosso abandono definitivo da terra natal ocorre, de facto, em 1970, começando então a divisão entre os que tinham nascido na terra natal e os que nasceram aqui. Os que eram bilingues, porque vinham frequentes vezes ficar com o pai, em Lourenço Marques, por isso tinham duas línguas maternas, o Ci-Cope e o Ci-Ronga, e os nascidos aqui, que tinham como língua materna o Ci-Ronga. Só diziam umas coisas em Ci-Cope para nos fazerem rir com piadas.

Todos nós não chegámos a precisar de períodos de adaptação, porque já estávamos adaptados, com as frequentes vindas e idas. A nossa mãe muito mais adaptada ainda com os “up-downs” a partir de 1952.

O nosso pai, nessa altura, já tinha conseguido construir duas casas na “Bela Rosa”, uma para alojar a prole e outra para alugar e aumentar a renda, como agora se diz. Tinha também já conseguido vedar a moradia com um quintal de caniço e madeira.

Era severo para com os inquilinos, a ponto de um deles, que comprara peixe que era designado de “2ª Fome”, e viera estender no estendal para secá-lo, ver aquilo a voar e depois a cair no chão, a uns metros de distância, retirado pelo senhorio. Não queria ali nada daquilo, porque aquele local era para roupa e ponto final. O inquilino reclamou, reivindicando as suas “2ª Fome”, mas já jaziam no chão. 

Um destes dias, com a nossa mãe em amena cavaqueira com uma comadre, sentadas na esteira no quintal, ouviu-se um alvoroço. E de repente vimos uma coisa voando, em cima do quintal, indo cair directamente na esteira, onde se encontrava a mamã e a sua amiga, que se viu depois tratar-se de uma pessoa estranha. Elas tiveram que abandonar a esteira.

Era um ladrão da zona, que tinha sido descoberto a roubar na casa de uns vizinhos e por isso estava a ser perseguido. Entrou então em vou directo, ao invés de vir pela porta. Pela porta vieram a correr os perseguidores do homem. Ali mesmo na esteira, com sapatos da ocasião, começaram a sovar o homem, que se contorcia todo de tanta porrada que apanhava e o sangue jorrando pela boca. O grupo, supondo que o homem já estava no fim, parou de o bater e foi buscar água, tirando-a do nosso tambor, sem nenhuma autorização para esse efeito. Regaram-no na cabeça e ele fingia que continuava mal. Mas de repente o homem se colocou em pé e deu um pulo, correndo, a pernas para que vos quero. Houve novo alvoroço na porta de saída e nova acérrima perseguição.

No dia seguinte soubemos que eles tinham levado o larápio para junto da linha-férrea em Missavene para lhe martelar os dedos das mãos e dos pés e inutilizá-los para não roubar mais e depois o largaram.

A prole que veio da terra de origem beneficiou-se bastante das histórias contadas pela mãezinha, a vovó contava pouco, à noite, à volta da fogueira, a assar na cinza quente da fogueira mandioca, ou quando fosse o tempo a assar maçaroca, a escutar, silenciosos o karingana, que tinha o coelho como personagem principal e que fazia, na narrativa, das suas. Só podíamos intervir como verdadeiros narratários, quando chegava a vez, ou para responder algo necessário colocado pelo narrador ou para cantar, na devida altura. Eram fábulas, como é natural, onde, dum lado perfilavam os bons e doutro os maus.

Se o dia fosse para uma fábula de gente má dormíamos com o medo de tudo, até da virtual chegada em casa dessa gente má, como o Pilivili, o lobo mau da zona, que andava a abrir as portas das pessoas, alta noite, apesar de ter morrido. No fundo, ele vivia em nós nessas narrativas medonhas.

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