Director: Lázaro Manhiça

LIMPOPO: A sarna (César Langa-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

 

SEMANApassada falei do percevejo, um bicho tão impiedoso que não dava sossego algum a muitos que viveram e sobreviveram durante a difícil década  80, que seria de vitória sobre o sub-desenvolvimento, mas que acabou sendo a mais penosa de muitos tempos.

Entretanto, durante os dias que se seguiram veio à minha memória outro fenómeno que caracterizou esta década, também por razões nada abonatórias. Refiro-me à sarna, da qual poucos escaparam. Mas devo frisar, aqui e agora, que, felizmente, sou dos poucos que escaparam a esta doença, por antídoto que desconheço. Talvez seja melhor mesmo falar de sorte, porque não me lembro de ter feito algo tão especial para não ter tido esta doença.

A sarna também era muito chata e vergonhosa. Conheci pessoas que nunca se desfaziam de camisas de mangas compridas, procurando esconder as borbulhas que enchiam o corpo. Aquilo era só coceira que nunca acabava. De muitas tentativas de cura, chegou-se a descobrir o enxofre. Realmente este químico era tiro e queda, para alguns casos, mas com um grande senão. O seu cheiro não deixava conforto a ninguém e constituía outra razão para vergonha.

A sarna atacava principalmente os dedos das mãos e era um desconforto total ver alguém lidar com alimentos usando aquelas mãos. Mas nem sempre havia alternativas, porque em algumas famílias eram quase todos os membros a sofrerem da doença. E alguém tinha de preparar as refeições. Durante as aulas de Educação Física assistia-se a um autêntico desfile de corpos sarnentos. Alguns “gazetavam”, por temer reacções dos colegas que não tivessem sarna. Era mesmo um desconforto.

Lembro-me de um guarda-redes de renome que não foi a um jogo porque tinha sarna. Não vou mencionar o seu nome, por razões éticas, mas, nessa altura, comentou-se muito sobre esse assunto. Não me esqueço, também, de uma moça que rompeu com o seu namorado por ser sarnento. Aquilo era mesmo uma tortura psicológica! Até para partilhar a merenda era um caso sério, porque o dono do pão podia ter sarna.

De vários medicamentos usados, entre tradicionais e convencionais, incluindo o enxofre, a sarna desapareceu da circulação. Acredito que seja difícil dizer-se qual terá sido o remédio eficaz, mas a sarna acabou e hoje pouco se fala deste mal. Alguns até não conhecem esta doença, que levava muita gente para as praias, porque acreditava-se que as águas do mar eram o melhor remédio. Muitos tomaram vários banhos das praias, mas sem sucesso. A sarna só desapareceu quando chegou a vez. E da mesma forma poderá desaparecer a Covid-19, ainda que muita gente pouco ou nada faz por travar os números de contaminações, que sobem a cada dia.

A reabertura das praias trouxe à superfície a grande irresponsabilidade colectiva e não me espantei com a possibilidade de se recuar com  algumas cedências que visam aliviar as medidas impostas, agora, pelo estado de calamidade pública, porque a Covid-19 não é problema somente do Governo. É assunto de todos nós e,por isso,somos todos chamados a jogar limpo(po).

 

PS: Os ziguezagues na estrada para a praia de Xai-Xai já têm dias contados, com a resselagem dos buracos que atentavam contra a segurança rodoviária neste troço. Não vou discutir os critérios, mas não deixa de ser curioso, pelo menos para mim, o facto de não se ter começado os trabalhos de um extremo e prosseguir-se até ao outro.

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Sigarowane: Mathxinguiribwa (Djenguenyenye Ndlovu)

 

LHEdisseram do dia que estava feio e do frio que fazia. Ajeitou as mantas e de costas pôs-se a olhar para o tecto e acabou apanhando sono. Quando abriu os olhos não se preocupou em abrir a cortina paraver a cor do dia. Sabia do seu compromisso e era já tempo de se pôr a trabalhar em sua homenagem,nesse dia feio e com chuviscos, como lhe disseram. Afastou as mantas e se compôs como quem vai ao escritório. E foi ao escritório,mas este fica a metros da cama.

Abre a porta e sobre a secretáriaestá um BLENDMASTER’S CASK. Um leptop, duas chávenas de chá e toda uma monstruosa desarrumação àvolta,mas estes objectos não couberam na sua retina. De repente estava sentado nos sumptuosos jardins do Hotel Havana, pertinho do lugar dos canhões da história.Na estradaque separa o hotel do Atlântico,turistas de muitos quadrantes do mundo,no gozo do que é belo,uns transportados em descapotáveis de motores dos anos cinquenta, dos anos sessenta. Quer dizer, os de sessenta ainda dão gozo,gozo e prazer. Um Iate de dimensões tamanhas está alipassam dias a vomitar dólares para a Ilha e não tarde que outro aporte num outro canto da mesma,que não se chateia. Um copo com Rum, misturado com um pouco de Mulata, enchia a sua mão direita e com exagerada altivez levava-o aos lábios depois de uma baforada do Cask. Depois ficava a ver o fumo subindo pelos ares, o mar,os turistas, o iate. Ficava a ver a alegria. E ficava alegre. Ficava alimentado.

Quando de novo a mão direita levou o copo aos lábios, veio o despertar. Estava sentado na sua cadeira preta, atrás da sua secretária e era um chá feito  de folhas secas de papaeira,apanhadas no quintal, que estava tomando. Mas o Cask,de quinze anos,esse sim,estava em cima da secretária bem acondicionado em um tubo de vidro alindado de papel dourado e com uma tampa preta docemente rugosa. Isso, sim era verdade,uma verdade que teve o condão de trazer para aquele lugarzinho desorganizado momentos e emoções de um tempoque não acabou.

Àdireita,um exemplar de Ernest (O Velho e o Mar) e veio a Havana Velha e o desejo de um daiquiri e a saudade de um som, e a dor de não poder contemplar corpos em vibração num palco de dimensões diminutas,de taças nas mãos.

Não há nacionalidades,não há cores, há humanidade, há vida.

Entra num museu,não antes de pagar dez pesos, bebe um daiquiri sentado no balcão do quiosque, mesmo antes de fazer a visita pela vez de que já não se recorda.

Mas, também, que importa.

Tudo sonhos,menos o laptop, o Cask e a desordem.

Sonhos,não. Revivências em idade de alegria.

Há Rum num outro lugar da casa. Há um licor(que não é Mulata) num outro lugar da casa e há mais um Cask num outro lugar da casa. Então… haverá alegria grande na casa.

Siyabonga estáa caminho e traz consigo uma guitarra,de que não se recorda como lhe caiu nas mãos. Aquela voz da madrugada, que canta blues.

 E muito vai ter de parar. É o Tchaúque,em Maputo,esse matswa que é também bitonga. Que é também muitas outras coisas.

É MATHXINGUIRIBWA,que passará a dormir nas cabeceiras.

 

Alimentará conversas de café, porque de Mathxinguiribwa, é a vida.

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BELAS MEMÓRIAS: Sandálias made in Xai-xai  (ANABELA MASSINGUE-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

 

DAS vezes que o meu saudoso pai chegava à casa e me dizia: “vá tirar as medidas do teu pé”, o meu coração quase que me caia de tanto pular. A alegria era tanta, com um misto de ansiedade e expectativa de ver o pé numa sandália nova manufacturada mesmo na rua onde eu vivia.

O mentor era o senhor Eduardo Abranches, um homem caneco, de estatura média, trato fino, cuja presença não passava despercebida. Por alguns e distantes laços de afinidade, eu e meus irmãos o tratávamos carinhosamente por vovô Abranches. Era nosso avô, não por nenhum grau de parentesco e muito menos idade para o ser. Assim o tratávamos porque era padrinho de compadres dos meus pais, aos quais tratava por tios, daí que a nossa relação se equiparava, para o caso do senhor Abranches, a de um avô.

Sim, nesses tempos os laços ainda eram de uma infinidade incrível, diferentemente do tempo em que, por exemplo, só é tio quem veio do mesmo ventre que os nossos progenitores. Até porque por via da cor da pele, o senhor Abranches estava longe de ser meu avô. Antigo funcionário da Educação, ele tinha um hobby: a arte de fazer calçado. Era o único sapateiro da zona ou pelo menos na rua onde eu vivia. Fora das horas de expediente, o homem fazia calçado para ambos os sexos e visitar o seu atelier era motivo de muita alegria para mim, meus dois irmãos e, acredito, para outras crianças dessa altura.

É que para ter o que calçar não havia muitas alternativas. O mercado não oferecia quase nada e nem havia sapato de segunda mão, comumente designado por “Xicalamidade”, como é hoje, embora isso não tenha levado muito tempo para acontecer. Era impensável falar de Ipanema, Sopropé, Picaddili,.. só para citar alguns nomes sem querer passar publicidade. Podia ter um sapato novo e genuíno quem tivesse parentes a trabalhar nas minas da África do Sul ou na extinta República Democrática Alemã (RDA). Assim, ir ao vovô Abranches era uma grande honra e alegria incomensurável.

É de lá que o nosso pé experimentava o sabor de calçado, feito de cabedal e sola à altura. O cheiro à cola fresca era a marca da sapataria, cheia de calçado em prateleiras e em algumas caixas.

 Era um cheiro que de incomodativo tinha nada, senão um sinal de aproximação de dias bons para o pé e, até certo ponto, prestigiante inalá-lo, enquanto se aguardava pela vez de experimentar a sandália: Difíceis momentos mas bons para quem não tinha referência de outras oportunidades e realidades!

Depois de ter as sandálias em mãos, a velocidade com que se regressava à casa equiparava-se a da luz. Não havia espaço para parar e nem para uma conversa com quem quer que fosse pois, a expectativa era chegar à casa e apresentar a novidade na esperança de ter uma saída, seja para escola, Igreja ou mesmo Hospital porque pretextos para passeios eram poucos e raros.

Com a sandália nova, havia oportunidade de se ensaiar um estilo diferente do habitual até porque o calçado sempre permitiu isso. Dependendo de cada feitio, o (a) dono (a) podia experimentar um andar diferente. Era assim também com as sandálias made in Xai-Xai, feitas com perícia das mãos do vovô Abranches.

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HISTÓRIAS & REFLEXÕES:  Afinal, quem é o deficiente? (ELISEU BENTO)

 

“OSburacos são muitos em algumas estradas aqui,na Beira, mas ainda se podem contornar. Agora, o comportamento de alguns automobilistas constitui uma autêntica falta de respeito àspessoascom deficiências. Eles abandonam as estradas e usam as passadeiras de qualquer maneira. As barreiras mais evidentes e perigosas são colocadas por alguns automobilistas na via pública”, palavras de Baptista Nfino, deficiente visual, estudante da 11ª classe da Escola Secundária Mateus Sansão Muthemba.

“Como algumas pessoas podem saber, a nossa grande praia é a estrada e quando estamos perante a indisciplina dos motoristas ficamos sem rumo. Alguns condutores nos atormentam com buzinas, mesmo estando parados, só porque querem comprar alguma coisa. Eu já caíduas vezes e fiquei ferida depois de um condutor buzinar com muita força”, testemunho de Inês Rosa Chirinze, outra deficiente, estudante da 12ª classe.

“Muitos sabem e notam que somos deficientes porque andamos em conjunto com as nossas bengalas, a caminho da escola ou mesmo passeando pela cidade. O nosso espanto é que quando passamos, muitos gritam, cuidado amendoim, cuidado bolos ai, e outros até nos barram com as mãos dizendo não pode passar por aqui, mas sem nos conduzir na direcção certa. Os automobilistas param carros e quando tacteamos com as nossas bengalas reclamam que está a bater meu carro”, contou Mia Guilherme, estudante da 3.ª classe, atónita com a atitude de alguns titios e titias.

 “Os principais obstáculos são colocados pelas pessoas. Somos ensinados a contornar os obstáculos e a andar sozinhos, mas a situação é péssima e perigosa na via pública por causa da insensibilidade de algumas pessoas. Os automobilistas não nos respeitam, os vendedores também”-desabafo de Celestina Oliveira, estudante da 7ª classe.

Estes são, caro eventual leitor deste espaço, alguns dos relatos que decidi trazer de volta a este Jornal depois de terem sido publicados numa reportagem.

Relatos, pois, que só levam a questionar: afinal, quem é deficiente?

Quando uma pessoa que, por mero acaso, vai ao volante de uma viatura, não consegue ter um intervalo de lucidez para respeitar outra pessoa apenas porque vai a pé, ainda que seja deficiente, esse mesmo que vai ao volante, não é ele o deficiente?

Quando esse mesmo é capaz de ficar a buzinar,insistentemente,para uma criancinha deficiente, somente porque quer comprar um cigarro, não é ele o deficiente?

Quando alguém, no seu perfeito juízo,é capaz mesmo de se por a gritar “estás a tocar no meu carro” a um deficiente que, com a sua bengala, procura tactear o terreno que vai pisar, não é ele o deficiente?

Vale trazer aqui mais um depoimento de Wilson Sampaio, estudante da 3.ª classe no Instituto de Deficientes Visuais que expressou-se nos seguintes termos:

“Quando se atravessa a estrada e o automobilista, no lugar de parar, buzina como se estivesse a espantar uma manada de bois,a sensação com que fico é que não tem familiar ou uma pessoa próxima com deficiência visual”.

Contudo, a receita, enfática, veio com Xavier Ernesto que, simplesmente, disse o seguinte:

“Os obstáculos devem ser contornados de várias maneiras e uma delas é ensinando a sociedade a respeitar os deficientes”.

Preto no branco. Mas a questão recorre: afinal, quem é o deficiente?

 

 

PSDepois de mais um ano de labor, eis chegada a minha vez de repousar. Assim, vou dar “uma desaparecida”. Revelo também estar perante o fim de ciclo na produção desta coluna. Poderei regressar com outra designação, sabe Deus! Por enquanto, será mesmo para revigorar energias e recuperar fôlego. Até sempre!

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DE VEZ EM QUANDO: Zeca Alage está vivo! (Alfredo Macaringue)

 

SAMORA Machel também está vivo . E parece que está a incomodar algumas pessoas, porque as massas, essas continuam a dar os “vivas” ao homem de Chilembene, que outorgou ao Ghorwane os galões de Bons Rapazes. Um título de honra que a banda carrega com orgulho. Mas o Ghorwane tinha um homem que se destacou pela célebre música “Masothswa” (soldados), uma crítica à guerra, independentemente de onde ela viesse.

Recordo-me do músico hoje quando todos nós estamos a ver impotentes o nosso país a resvalar,novamente,para o sofrimento.  Zeca Alage dizia que as armas são mais caras que um saco de arroz. Claro que ele revelava,nesse verso,a sua revolta porque todas as guerras são desnecessárias. Samora Machel ouviu essa música,e no lugar de reagir violentamente contra a banda, como seria de se esperar naquele tempo, compreendeu a intenção dos jovens da altura e no lugar de repreendê-los, acarinhou-os, chamando-os de Bons Rapazes.

“Masothswa” é um tema que hoje se renova perante uma realidade que ninguém deseja. Uma realidade,aliás,que só é apoiada por aqueles que a promovem, impedindo o nosso país de subir os degraus da paz e do bem-estar de todos.

Tiyimpi taku kala tinga heli ni to yini denjô?(O que fazer perante estas guerras que não acabam)? Este é o grito de Zeca Alage, estampado na sua música que teima em soar nos nossos sentimentos, mas que é ignorada pelos patrões que querem, aliás, que a carnificina continue, porque eles vivem do sangue do povo.

Ti hetile ni vatukulu va mina, vatukulu ninga va siya Guaze-muthini (Estas guerras exterminaram os meus netos que havia deixado em Guaze-muthini). De facto toda esta dor está dentro de Zeca Alage,  um músico assassinado nas barreiras da Maxaquene, em Maputo, nos finais da década 80, deixando Moçambique a sangrar até hoje. Assim como sangrou o corpo do ex-Ghorwane até a coagulação. Foi-se o homem, mas ficou a mensagem vibrante, tinhimpi taku kala tinga heli ni to yini denjô? (o que fazer perante estas guerras que não acabam)?

Zeca Alage viverá para sempre em pessoas sedentas da paz e harmonia, com certeza! De cada vez que tombar um compatriota nas matas ou nas estradas ensanguentadas pelas balas, levantaremos a bandeira de Zeca Alage. De cada vez que um companheiro for decapitado, agitaremos a bandeira branca de Zeca Alage. De cada vez que as balas choverem sobre o corpo nu duma mulher içaremos a bandeira de Zeca Alage. Sempre que as bazookas e canhões troarem, diremos, viva Zeca Alage!

A luta continua!

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