Dialogando:  Apresentação dos dirigentes que suscita curiosidade  (Mouzinho de Albuquerque)

 

 

SE bem que possa haver, logo à partida, dúvidas de que dirigentes falamos aqui, referimo-nos aos dirigentes do nosso Governo. O facto aqui é que o Chefe do Estado, Filipe Nyusi, nas suas deslocações às províncias, também privilegia a apresentação em público dos outros dirigentes que o acompanham, como ministros, governadores provinciais e outros. Cada um levanta-se e diz o seu nome, função que desempenha e, por último, grita de exaltação ou elogios ao chefe e de outras coisas da governação.

A auto-apresentação é feita através de línguas faladas na província visitada. Os que não sabem falar por não serem naturais e alguns mesmo sendo dessa província tentam fazer “esforços” para pelo menos conseguirem dizer alguma coisa. É uma iniciativa do PR que se pode louvar, porque na verdade a nossa auto-estima deve vir do desejo de termos a consciência de que o espaço construído pelos nossos antepassados também nos pertence a todos. O país não pode perder a sua auto-estima e sua referência etnolinguística. 

Entretanto, as auto-apresentações começam a suscitar curiosidade, quando um dirigente natural faz-se de não saber falar uma língua que é falada na sua própria província. Por exemplo, não pode ser aceitável, em nenhuma circunstância, que um dirigente natural de uma província como Niassa diga num comício popular em Nipepe que “sou daqui do Niassa”, para depois não conseguir expressar-se em língua local, mesmo que se sujeite a um exercício penoso para pronunciar uma única palavra. Não parece fazer sentido que os ajauas, nyanjas e macondes, grupos etnolinguísticos representativos das províncias do Niassa e Cabo Delgado, tal como os macuas, não saibam até nos tempos que correm falar a língua dos últimos, e vice-versa. O mesmo podendo acontecer entre os cisena e cindau, em Sofala ou com outras línguas nacionais.

Sem querer reacender as antigas clivagens sócio-históricas, entre as principais etnias daquelas duas províncias do Norte do país, dizer que do que se assistiu no comício de Nipepe e noutros distritos do país, particularmente do Norte e uma parte da Zambézia, transparece que o cerne das aparentes dificuldades de alguns dirigentes em falar as línguas locais, mesmo sendo naturais, tem a ver com o ainda continuarem a pensar ou comportar-se, com orgulho e mais leais à sua tribo que qualquer outro grupo social, ou melhor dizendo, do que qualquer coisa, é uma questão que aparenta orgulho tribal, que não precisamos como moçambicanos apostados na nossa união inquebrantável.

A ser verdade é mau, na perspectiva de que os dirigentes devem estar na dianteira no combate a preconceitos e práticas tribalistas e na valorização da nossa diversidade etno-cultural. Todavia, a ser verdade, então precisamos de descolonizar as nossas mentes ou a nossa consciência preconceituosa. Queremos acreditar que ao mandar os ministros e governadores provinciais e outros dirigentes para se apresentarem daquela forma, o PR terá achado que a sua iniciativa constitui um indispensável instrumento para que haja uma melhor coabitação na diferença tribal e sociocultural, uma das bases fundamentais em que se assenta a nossa unidade nacional. Até porque a Frelimo definiu no período pós-independência, a discriminação com base na cor, tribo e religião como um dos seus combates prioritários.

Vale a pena recordar que nos anos oitenta, o falecido Presidente Samora Machel disse aos estudantes moçambicanos na Ilha da Juventude, em Cuba, que seria estupidez ouvir que entre eles havia tribalismo e regionalismo, porque sem a unidade Moçambique não teria alcançado a independência e os esforços do Governo estão virados para a consolidação dessa conquista, que representa a suprema aspiração do povo. É um ensinamento que deve ficar na nossa memória colectiva como cidadãos deste país apostados na consolidação da unidade nacional.

Por isso, o apelo à consolidação da unidade nacional que tem sido feito em comícios populares e noutros fóruns, não é e nem pode ser uma coisa vã. É algo que compromete a sociedade moçambicana, porém, sem essa estupidez que o estadista estava contra. 

Embora estejamos tristes com aparente prevalência de algumas atitudes tendentes à autovalorização etnolinguística e cultural no país, não nos move o desejo de acirrarmos ódios, tanto é que o momento continua a aconselhar a continuação da reflexão sobre o combate às tendências divisionistas, na certeza de que a compreensão e valorização de todas as línguas e culturas de Moçambique potencie o espírito de unidade nacional. Aliás, os órgãos de informação também são chamados a desempenharem um papel pedagógico positivo na transformação dessas mentalidades, para deste modo se reforçar a unidade e coesão nacional. Esperamos que sejamos entendidos desta forma. Contudo, tem sido salutar e prestigiante que ouvimos, de forma insistente, os nossos governantes e não só, o seu reconhecimento da importância da unidade nacional, rumo a uma sociedade moçambicana inclusiva. Na realidade, só assim é que os cidadãos deste país serão capazes de construir uma nação livre, justa, democrática, de paz, igualdade e progresso e não de preconceitos, neste caso tribais.

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Retalhos e Farrapos:  Maria Albertina Valentim Tauzene   (Hélio Nguane)

 

 

ACORDEI. Estou feliz, vivo! Sinto a amargura dos comprimidos e ainda me recordo da ponta da seringa, a doutora das mãos gordas, o cheiro de cloreto, a incompetência dos estagiários, os comentários fora-de-hora da enfermeira, os conselhos disparatados da moça de limpeza.

Mesmo tonto, despertei, pensei em sentar-me, mas preferi ficar deitado a contemplar a minha falta de ocupação. Rebolei na cama, estiquei a mão e peguei o recipiente com água. O líquido humedeceu pensamentos incendiários: acalmou-me.

Mexi o celular, li várias mensagens, respondi o que me interessou, ignorei muitas. Recordei-me que era sábado, entrei na Internet, vasculhei nos motores de busca e encontrei o que procurava:

São 5.00 horas. Ele já fez três orações. Há várias dúvidas. Mas há uma certeza bem firme: o corpo que ontem sentiu prazer, hoje vai vibrar e vai se arrepender. Rumores e boatos. Uns dizem que o miúdo comeu os ovos um a um, pois não matabicha, nem almoça. É uma vítima daquela casa. Outros argumentam que a receita foi esbanjada na compra de bolachas e outros produtos de ocasião”, lia o texto “A primeira vez de João Matandza”.

Animado com a estreia da minha coluna, ganhei forças e consegui levantar da cama. Encontrei água quente, com dificuldades lavei o meu corpo, voltei à cama e dormi. Despertei às 17.00 horas com febres, às 18.horas senti frio, às 19.00 horas voltei a dormir, às 21.00 horas despertei e escrevi textos,  às 0.00 apaguei, às 02.23 acordei e tomei dois litros de água em quatro minutos, fui à casa de banho e voltei a dormir, com medo de nunca mais acordar.

 

FRACASSEI

Hoje estou mais lúcido. Levantei-me da cama, firme, tomei um banho frio, olhei-me no espelho, vi a cara do bom moço, respirei fundo e imaginei-me a descrever o que via naquele reflexo num texto. Fiquei em sentido, tive uma ideia, escrever para homenagear à minha fonte de inspiração, a pessoa que mais venerei em toda a minha vida.

Estou na redacção, com os olhos fixos no Word, já passam nove dias que tento começar a crónica. Queria ter inspiração para escrever um texto dedicado à minha mãe, para agradecer, agradecer, agradecer, agradecer, agradecer…

Nem é cliché. Pode até ser cliché, mas falta-me inspiração. Tenho medo, sinto que não sou capaz de redigir um texto belo, puro, de alma imaculada, que reflicta o papel da minha mãe na minha vida.

Hoje estou lúcido, seguro da minha missão, a minha coluna “Retalhos e Farrapos” tem um ano.

FORÇA, OTTO!

Acordei, estou feliz, vivo! Mas um dia estarei contigo, mãe.

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Timbilando: Tentativa e aborto da greve  (Alfredo Dacala-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

 

 

 

Em 1982, começamos a trabalhar, depois de uma formação de dois anos em áreas bancárias e comerciais, como referimos, semana passada. Quando entramos para o ciclo de formação em 1980, saiu a famosa lei 4/80, que determinava o pagamento de 2.100,00 meticais para todo aquele, que entrasse para o primeiro emprego. A data da entrada em vigor da lei era 1 de Abril de 1980.

Então, em Janeiro desse ano, quando foi anunciada a lei, fomos ter com o senhor Valdomiro Tomé Sócrates, que era então o director de Formação do Banco de Moçambique, para saber com que linhas nos havíamosde coser, quando acabássemos a nossa formação, que, entretanto, então, estávamos a iniciar. Sossegou-nos. Que não seriamos abrangidos pela 4/80, porque de facto tínhamoscomeçado a nossa formação antes da dita-cuja. Que sossegássemos e outros bla...bla...bla.

Quando acabamos a formação, dirigimo-nos à direcção do pessoal, para assinar os contratos de vinculação. Qual foi o nosso espanto, quando detectamos que a famigerada lei lá estava, abrangendo-nos. No contrato, estava bem escrito, que havíamosde receber 2.100 MT e com os descontos ficávamos com 2.020 MT.

Aquilo era um salário mínimoe não nos parecia um vencimento compatível com o nosso estatuto. Porque todos os outros tinham salários muito bem acima dos nossos. Aliás, muito acima do nosso, 4 ou 5 vezes mais que o nosso. Por isso, tentamos não nos apresentar aos diversos locais onde nos tinham colocado, em sinal de greve. Greve no tempo de Samora.

A tal greve ficou apenas pela intenção, porque o director do Pessoal, Abílio Pilica, era também secretário do partido, na instituição. Fomos mobilizados e politizados a desistir da ideia e ir trabalhar, sem espaço de irmos confrontar Sócrates.

Por isso, todos nós nos apresentamos aos locais de afectação. Eu na Direcção de Formação, onde fui parar com colegas como Aníbal, o grande Ball, Lígia, que ficou depois mulher deste, Atanásio Nhacudime, que eu o chamava de avó, pois, tinha o mesmo apelido da minha avó Gayane, o Rufino, e o velho tuga professor Rosário, que trabalhava também na Direcção de Formação, fumegando como uma chaminé, por causa do tabaco, bem como o velho Faria, o maxaquenense ou sportingista,  Mouzinho e a sra. Rossana e muitos outros, como o velho Francisco Só. No BI dele só vinha o nome Francisco. Por isso, para nós ficou Francisco Só.

Os outros tinham ido parar noutras direcções e outras secçõesda instituição. Outros tinham ido trabalhar noutros bancos como o BPD e o Standard Totta. Aqui, ainda estava, um nosso velho professor de português, Domingos Costeira. O grupo já incluía ambos os formados: nós, os externos e os internos.

Nesse ano, 1982, recebemos também um grupo que vinha de Cuba. Era um grupo diversificado, com todas as províncias representadas. Como eu estava na Direcção de Formação coube-me a tarefa de os ir inserindo para adaptação institucional, enquanto frequentavam um curso de curta duraçãoem Iniciação Bancária. Alguns tinham nomes pouco comuns como os falecidos Kenneth Matximba e Chenguetai Grebete, outros comuns, como Adelino Fernandes, Adelino Pimpão, António Pinto de Abreu, e outros.

A receber 2.020 Meticais, como apelidávamos, pressionamos a Direcção de Formação para  encaminhar, todos os nomes, dos que quisessem continuar os seus estudos à noite, na Escola Comercial de Maputo. Á noite, fazia-se o ciclo em quatro anos, mas como nós tínhamos já recebido, na escola da banca, as matérias correspondentes ao 1º ano, fomos inseridos no 2º Ano.

Assim, muitos de nós, que continuamos a estudar, em 1984, já estávamos no 1º ano do Instituto Comercial de Maputo, a continuar a seguir o curso de Contabilidade. Palmilhando, basicamente, as ruas, a caminho da escola com Sílvio Chirindza num ano de grande fome e bichas para tudo e nada, como o de 1983.

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NUM'VAL PENA: Daniel Sacoor      (Leonel Abranches)

 

 

 

Míster Dan reúne consensos na cidade de Quelimane. Poucos terão o azar de não o conhecer. É dono de uma invejável compleição fisica. Do alto dos seus muitos anos de vida, arrisco-me a conjecturar perto de sessenta anos, Daniel Sacoor é sim o exemplo das vantagens da cultura física. Exibe sem qualquer aura de grandeza portentosos biceps, aculturados por majestosos triceps e uma massa muscular de fazer inveja a qualquer um imberbe “personal trainer”. Magro, mas não caquético, rijo e com um formato igual a de uma arco de caça índio, míster Dan vive a cultura fisica no seu dia-a-dia e os resultados são testemunhados pela grandeza da sua simplicidade e amizade. Os longos cabelos e quase sempre vestindo roupa jovem revelam a sua perspectiva e ideal de vida: inconformismo com a rotina e adepto do riso e da alegria.  Por isso mesmo Dan é um bom conversador  e contador de estórias fora do comum. Tive o grato prazer de com ele, e mais o meu comparsa e amigo Silvestre Domingos,  privar em algumas viagens, algumas vezes ele como treinador e outras como dirigente de equipas de basquetebol. Vivemos algumas odisseias próprias do contexto político-militar em que vivíamos. Contudo, marcou-me indelevelmente a incrível viagem para Nampula, para um campeonato nacional de basquetebol, creio que de iniciados ou cadetes femininos. Daniel Sacoor era o responsável máximo da equipa emergente da Boror de Macuse, o míster Silvestre Domingos era o técnico principal e eu seguia como árbitro acompanhante. Até ao dia de partida não havia sequer dinheiro para as passagens e muito menos lugar nos caóticos e difícies voos domésticos. Daniel Sacoor juntou-nos na sede do clube e com claras indicações de levar bagagem, pois garantia que seguiríamos nesse mesmo dia.

“Vamos viajar hoje, alma ´davó`, não se preocupem…!”

”Mas…. como míster, se nem taco temos….” –questionamos incrédulos!

“Alma `davó´….”– limitou-se a responder míster Dan. Entrou para os escritórios da empresa que sedeava a equipa e vinte minutos voltava com um sorriso de orelha a orelha.

“Eu não vos disse?! Vamos subir boeing hoje.” Saltitámos de alegria como coelhos, mas ainda meio reticentes.

“Mas, mister Daniel, não temos sequer reservas para hoje e os voos estão cheios há mais de um mês…”– questionou Silvestre Domingos preocupado com o rumo que as coisas estavam a ter.

Vamos hoje e com uma escala na Beira.” Sentenciou Sacoor. A verdade é que chegados ao aeroporto  e depois de curtos minutos de conversa com o chefe de escala, a equipa embarcou para a cidade da Beira, de onde faríamos escala, depois do que seguiríamos viagem uma semana depois (!!?) para Nampula. Daniel Sacoor era de uma ligeireza argumentativa  na produção de discursos extraordinária. Não tinha, e penso que ainda assim é, qualquer dificuldade para convencer o seu interlocutor, mesmo das mais absurdas convicções, como da vez que nos garantiu que já tivera uns óculos que para além de espantar a chuva, eram também especiais porque com um click num botãozinho desnudava por completo quem estivesse por frente. E ficávamos ali espencados e com olhos esbugalhados e a boca aberta a escutar incrédulos as estórias mágicas de Sacoor, que era exímio no capítulo motivacional às equipas que acompanhava. Na altura, eu fazia o baptismo como árbitro em campeonatos nacionais de básquete e recordo-me ter sido escalado para apitar o jogo de abertura, num pavilhão inchado e a rebentar pelas costuras, com os membros do governos “embalalaicados” na cabina “vip”, e ia fazer dupla justamente com…Camilo Ussene, o expoente máximo da arbitragem a par de José Ferrete. Eu tremelicava que nem uma vara verde. Nunca tinha estado e muito menos falado alguma vez com Camilo Ussene, que acabava de desembarcar de Alexandria, onde apitara um campeonato africano. E de repente o gajo estava bem ali à frente de mim. E para piorar, Ferrete, o outro guru do apito, estava escalado para a mesa. Todos a olharem para um pivete novato que quase se borrava. Ora bolas!

Daniel Sacoor procurou por mim e descobriu-me num beco tremendo e roendo desalmadamente as unhas. Olhou para mim e vociferou:

“Vatalixar pá. Sai daí. Puto, tu só tens que entrar em campo, olhar para o Camilo Ussene de frente, mandas o gajo meter a camisa por dentro das calças e pergunta-o se ele te conhece de algum lugar…de certeza que ele vai responder que não…e aí tomas a dianteira e dizes ao gajo para correr menos porque tu estás mais e melhor preparado. Vai e divirta-te pá…”.Verdade seja dita, o Camilo Ussene e o José Ferrete “massacraram-me” durante o nacional todo, escalando-me para todos os jogos, inclusive a final. Foi gratificante e graças ao espírito paterno de Sacoor.

De ti guardo boas e gratas recordações mister Daniel Sacoor. Um grande abraço!

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ACENTO TÓNICO: Lições do outro lado do mundo (2)   (Júlio Manjate-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

 

 

 

ELIUD Kibii, um jovem jornalista queniano com quem partilhei dias de pura aprendizagem no Japão disse, certa vez, uma verdade que não sai da minha cabeça:

“(…) O ser humano não precisa de dinheiro para usar o seu cérebro, mas pode precisar de muito dinheiro para resolver os problemas criados por agir sem aproveitar o cérebro que tem… Veja os japoneses, por exemplo, não precisam de gastar dinheiro a limpar a cidade, porque usam o cérebro para evitar que haja lixo espalhado nas ruas como infelizmente acontece nos nossos países”.

Fiquei umas horas a mastigar este discurso, tanto que me convenci que é a mais pura verdade! De facto, a nossa consciência deve comandar os nossos actos e impedir que, circunstância alguma nos permita atirar um simples recibo de recarga de telemóvel para o chão. Isso para não falar daqueles casos extremos, corajosos e absolutamente irracionais em que, da janela de um “chapa” ou da nossa viatura particular, atiramos garrafa de água, refrigerante ou cerveja, cujo conteúdo tenhamos consumido. Quantas vezes vemos pessoas desfazerem-se, em plena via pública, de partes de um jornal, de um plástico, de uma casca de banana ou de laranja, para não falar daqueles outros que não se importam em urinar na primeira sombra, em plena luz do dia, sob o pretexto de não haver sanitários públicos?

De facto, estes são gestos aparentemente pequenos, mas que têm consequências económicas profundas, já que depois é preciso se mobilizar dinheiro para limpar aquela sujeira toda, tentando fazer das nossas cidades e vilas, lugares melhores e dignos de nós enquanto seres pensantes.

Sem assumir que os japoneses sejam os únicos que têm uma postura exemplar, individual e colectivamente, em relação ao lixo, há detalhes que não deixam de impressionar: Por exemplo, não há latas de lixo a “desfilar” nas ruas de Tóquio! Confesso que não sei se esse é o hábito que fez o monge mas, talvez seja por isso que qualquer cidadão na via pública que por alguma razão acabe com um resíduo nas mãos, só pode levá-lo até à sua casa, onde começa o ciclo normal de gestão do lixo.

Vivi essa experiência no dia em que precisei de beber uma água enquanto me movimentava pela cidade. A solução que tive foi conservar a garrafa comigo até regressar ao hotel, onde ainda assim, só tive acesso ao vaso de lixo no… quarto!

Depois daquele episódio, passei a prestar mais atenção ao comportamento das pessoas na via pública, e percebi que, no geral, elas evitam situações que possam resultar na produção de lixo em lugares impróprios, exactamente para não ter de andar pelas ruas com coisas inúteis nas mãos.

Numa dessas manhãs, enquanto aguardava pela viatura que me levaria a mais um dia de trabalho, apreciei a forma apaixonada como um homem limpava os vasos de flores que ornamentam não só a fachada do seu local de trabalho como também o passeio dos peões e bicicletas, e a via, no seu todo.

Equipado com várias ferramentas, cada uma com a sua utilidade específica, e um balde com água, o homem caprichava a olhos vistos enquanto numerosas outras pessoas passavam por ele para os seus afazeres, com uma atitude de visível respeito pelo trabalho que aquele personagem fazia com incontida devoção.

Impressionou-me a postura daquele trabalhador da limpeza, e confesso que quando a minha boleia chegou, ainda me apetecia ver mais daquele episódio inspirador.

Alguns poderão perguntar a que propósito vem esta história, questionando a importância de falarmos repetidamente de coisas que sabemos. O meu ponto é que de facto sabemos, mas não fazemos!

Francamente, não sei por que continuamos a fazer do lixo “nosso parceiro”; por que cada um não se esforça por usar o cérebro que tem para evitar produzir lixo, ou pelo menos produzir apenas o inevitável. Também não percebo porque é que ainda há gente que encontra alívio ao atirar e quebrar um vasilhame de cerveja no asfalto, assim como fazem ali, na avenida 10 de Novembro, em plena baixa da capital do país; na estrada circular ou no perímetro do Parque dos Poetas, na Matola.

Nalgum momento perguntava-me quantos anos mais precisarão os cidadãos do meu país para terem a mesma perspectiva em relação à gestão do lixo! É possível reduzir o horror que o lixo causa nas nossas cidades e vilas.

Podemos, sim, pôr em prática aquele dispositivo legal que penaliza os condutores de cujos veículos em movimento é atirado lixo para a via pública! É provável que isso não resolva o problema da noite para o dia, mas sou dos que acreditam que nunca é tarde para começar.

Até p’ra semana!

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