Director: Júlio Manjate

PERCEPCOES: O preço do orgulho (Salomão Muiambo-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

 

JOÃOde Deus está desempregado. Ele integra o “exército” de outros milhões de moçambicanos que procuram (re)colocação.

Conta ele ser muito terrível a ociosidade. Não sabe de onde tirar o dinheiro para arcar com as despesas do quotidiano: pagamento da água e electricidade, pão de cada dia, transporte, entre outras.

João de Deus caiu no desemprego não porque a sua empresa tenha declarado falência, como acontece com tantas outras, sufocadas pela rigidez da economia de mercado. O orgulho “matou” o homenzinho, que agora tem de sair de casa cedo como se de um operário se tratasse, à procura de emprego.

“Arranja-me lá um emprego”, tal é o termo que usa quando se encontra com amigos e outros conhecidos no seu exercício diário de procura de nova colocação. Mas afinal como é que João de Deus perdeu o emprego?

Ele é motorista de profissão. E já conduziu “gente grande”. Conhece e domina as regras de jogo para o exercício da sua função. Porém às vezes se “distrai” ao querer colocar-se em pé de igualdade com essa “gente grande”.

A última “gente grande” que transportou foi uma administradora de uma reputada empresa nacional. A empresa, que até pagava atempadamente salário compatível com a função, incluindo alguns subsídios, como os de risco e de isenção de tarefa sem limite de tempo, engordando o valor líquido mensal, era rigorosa na observação dos direitos e exigência dos deveres dos trabalhadores. E um dos deveres era que João de Deus abrisse e fechasse a porta do carro durante o embarque e desembarque da administradora, isto durante as suas deslocações em serviço. Porém, o “pobre” do João não se conformava com o facto de ter que abrir e fechar a porta para alguém que, tal como dizia, é igual a ele: tem os membros completos e não é nenhum deficiente. Ademais, quando se senta no banco da trás nada mais faz se não “whatsappar” ou ler o jornal.

Isto enervava aquele motorista, que via naquela administradora a sua filha em idade. E, como tal, não engolia a seco o ter de lhe abrir e fechar a porta.

Por várias vezes a administradora chamou atenção ao motorista para a necessidade de cumprimento do seu dever, conforme o estabelecido no seu contrato de trabalho. Porém, João de Deus, teimoso, sempre se recusou a cumprir este dever, até que um dia fosse interpelado pelo chefe do Departamento dos Recursos Humanos sobre o assunto. Este fê-lo ver que ali não se tratava de nenhuma criança, conforme ele via e que o abrir e fechar a porta era uma regra estabelecida pela empresa para quem transporta “gente grande”, como a administradora. E que isso não tinha a ver com o facto de ser ou não deficiente. Contudo, João de Deus recusou-se a cumprir o seu dever até que os Recursos Humanos decidiram pelo cumprimento do que vem escrito no contrato de trabalho: Rescisão.

E hoje o custo da sua teimosia tornou-se mais elevado do que quando estava empregado como motorista da administradora. Eis é o preço do orgulho.

Até para a semana!

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Retalhos e Farrapos: Amanhã vou urinar no manual de história (Hélio Nguane-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

 

ESTRANHAMENTE, chove em Chisinau. A cidade está tímida, as ruas, pálidas, a brisa gelada estremece a alma das avenidas. Fevereiro é um mês triste. Os dias são mornos. Neste momento queria estar num dos 19 parques da cidade verde, a ler um dos poemas de Pushkin. Já me vejo a declamar os versos do meu escritor preferido,as crianças que apreciam a calmia dos jardins. 

“Com o espírito morto de sede,

Rojo-me num deserto escuro,

E voa um anjo de seis asas

Na encruzilhada dos meus rumos.

Com dedos leves como o sonho

O Serafim toca-me os olhos:

Uns olhos profetas se abriram

Como os da águia assustada”.

Lia em voz alta o poema “O Profeta”.

A minha cidade foi reconstruida, mas ainda se recente, são grandes e não saram as cicatrizes da Segunda Guerra Mundial. Já perderam a beleza os edifícios idênticos, tão semelhantes, que me perdia, andava círculos, à procura da casa do meu tio. Apesar das marcas da carnificina da guerra, ainda é possível apreciar o inestético estilo soviético.

Queria estar na rua, a sentir o cheiro das folhas do limoeiro e das frutas dos castanheiros. Queria estar só, ler os versos, a contemplar o silêncio, a calar a pobreza estrema deste pedaço de terra, que os esperançosos teimam em chamar de nação. Falta tudo aqui. Quando mais novo queria abandonar o país na primeira oportunidade. Até o fiz. Longe da minha pátria natal, acumulei riquezas e hoje produzo o vinho, que um dia fez Gargarim, em 1966, descer àcave e retornar das profundezas,dois dias depois.

A pobreza legitima ditaduras, prolifera boatos, dá luz a sistemas repreensivosque nos fazem odiar política. A revolta anda à flor da pele. Na Moldávia os jovens são mal remunerados e o nível de vida é caro. Eu tive sorte, mas para pessoas da minha idade é ainda mais difícil. As poucas forças que lhe restam são para tratar da casa e das hortas que lhe fornecem alguns alimentos.

Estou farto de viver do passado. Amanhã, quando a chuva passar, vou fumar cigarros no Stefan cel Mare. Quero ver a fumaça a pairar no ar e calmo, quero acender os manuais quepropagam a lavagem cerebral de sempre. Mas antes de fumar no meu parque preferido, quero beber um vinho vagabundo, feito das piores uvas, para destilá-lo e transformá-lo em urina para regar as cinzas dos livros de história que quero queimar.

Mas hoje estou feliz, voltei a ganhar o gosto pela leitura, reapaixonei-me pela poesia de  Pushkin. E para terminar o meu relato, deixem-me dizer que estou mesmo feliz, pois, há dias que pensava em escrever a crónica. Consegui dizer parte do que sentia, apesar de ter uma ferida no dedo.

Agora chegou o momento final, aquele que mais gosto, a hora de escolher o título. Estou indeciso, penso que será: “Os blocos de notas de Nemerencoi Jean Lurco”. Não, acho melhor que seja “O diário de Lurco”, assim meus conhecidos saberão que fui eu quem escreveu.

Há dias escrevi um texto e partilhei, por e-mail, com um amigo que vive na  Transnístria. O texto tinha o título: “Relatos de uma Europa Pobre”, mas ele me deu uma sugestão que assentou muito bem e o texto mudou de título, ficando: “É triste visitar a casa da avó”.

Já divaguei de mais, verei o melhor título depois de colocar o ponto final. Mas sabem, estou com uma vontade estranha de urinar, mas vou aguardar para amanhã. Espero que não chova.

 

Do vosso cronista, Lorco.

Fevereiro de 2011.

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NUM`VAL PENA!: Marcelino dos Santos (LEONEL MAGAIA)

 

“Se um homem não descobriu nada pelo qual morreria, não está pronto para viver.”

Martin Luther King Jr.

PREPARAVA-ME para enviar à redacção a crónica do dia, quando pelo watsapp um amigo me afiança, abalado, que Kalungano tinha partido. Simples e seco disse-me: “o velho Marcelino avançou...”. Cancelei imediatamente a crónica e convoquei para a actualidade uma outra. E disse para mim: “esta é a minha singela homenagem para esta figura incontornável da história deste país...”.

Vi-ohá dias. Caminhava apoiado numa bengala, o que me fez concluir que não via passava muito tempo o velho Marcelino. Contudo, caminhava célere e seguro. Dono de uma aparência bastante jovial para a sua idade. Estava um sábado solarento e de calor mordaz, daí que o convite para se refugiar em estepes refrescantes fosse geral.

A fila para embarcarno ferry-boat era longa, mas bastante alegre. Os carros vomitavam cadências ritmadas que convocavam os esqueletosaempinarem-se convulsivamente ao som de Zico Maboasuda.

Os U2 também se faziam ouvir e lá mais para o fundo da fila para o ferry beldades meneavam as ancas provocadoramente,entretendo-se com o refrão desconfiado de Stewart “dizem que vale a pena casar!”. As gargantas evoluíam e entremeavam entre o refrão de Maboasuda e goles sofridos de Heinneker, Cocas, Spine outros líquidosdesaconselháveis para o colesterol. Pois então, quando vi aqueleguerrilheiro de causas nobres estava eu a tentar perceber a sociologia de massas, olhando para aquela gente muito moçambicana dançando e cantando ao sabor da brisa do mar. Um mar que nos delicia com a frescura do Índico.

O velho Marcelino, que queria dar um salto à Catembe, olhou para a enormidade da fila e sorriu. Era enorme a fila. Sorriu porque se apercebeu que o povo sorria. Dançava alegre. Imediatamente acercaram-se dele meninos, rapazes, jovens e velhos. Todos queriam ser solícitos. Queriam que o velho Marcelino txopelasse a bicha e fosse para a frente. Estavam todos de acordo: “não há problemas, o velho pode txopelar pá. Se não fosse o gajo nem estaríamos aqui.” Não sei se Kalungano txopelou ou não. Outro dia, num banco que não vou publicitar o nome porque estou zangado com eles, ainda que seja internacional de Moçambique, vi Marcelino chegar e perguntar quem era o último na fila, na maior das modéstias. Todos os bichantes se entreolharam e, como que por artes mágicas, decidiram de forma unânime que o camarada devia seguir para ser atendido imediatamente. O velho recusou-se redondamente e, segundos depois, estava no maior papo e às gargalhadas coma malta da fila.O zeloso gerente do balcão do banco que não digo o nome, mas que é internacional de Moçambique, com quem estou muito zangado, levantou-se e convidou o palestrante de ocasião para um atendimento personalizado. O velho, a contragosto e quase empurrado pelos amigos bichantes, acabou aceitando o convite.

Na filapara o ferry-boat para a Catembe também foi assim. Marcelinodos Santos foi literalmente engolido numa horda de gente. Todos queriam conversar com o guerrilheiro. Todos queriam tirar uma fotografia com ele. As crianças gritavam o seu nome, seguramente influenciadas pelos pais. Marcelino sorriu e conversou, abraçou calorosamente as crianças, aguentou firme com os flash dos papparazi de circunstância. Foram momentos impressionantes. Acreditem, a minha moçambicanidade e auto-estima e de todos quantos viram aqueles momentos verdadeiramente enternecedores e sem nenhuma nesga de cinismo cresceram orgulhosamente. E depois recordei-me de Samora.

 

Obs. Texto publicado a 9 de Novembro de 2011.

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Sigarowane: Chuva de dor e de fartura  (Djenguenyenye Ndlovu)

 

FAZum friozinho aqui, pá. Oh!.. nada disso. Uma ventoinhaestá ligada e fica pelas costas. Para desligá-la precisa de uma cadeira,no mínimo. Se não tem de buscar um agasalho.  Qualquer das soluções é de menos esforço, uma se calhar mais atlética: tem de se movimentar por uns cinquenta metrinhos para o agasalho.

É verdade que está tudo cinzento, mas essa cinzentisse não carrega consigo frio. É verdade que muito lentamente cai a chuva. A chuva que já ontem,domingo, atingiu níveis de torrenciais. E foi dia e foi noite e foi madrugada e é esta manhã e não dará tréguas. Foi tão forte que até a piscinada pequenada que estava ficando sem água, hoje já está a transbordar. Chove. É chuva  miudinha, sim, essa que a dizem fertiliza os solos, de pré-sementeiras para os produtores descriminados pela natureza: não chove e não há produção de alimentos. É chuva que não reaviva as culturas que o sol queimou. Sol de tempo longo, como diz Mueche. Não diz mal desta chuva, mas que foi tardia, para ele. É chuva que carregando consigo a dor para milhentas famílias que fazem girar a roda da economia: a actividade informal de comércio reduz; a baixa da capital anda semi-desértica e os serviços de saneamento postos àprova.

Nos bairros periféricos é a desgraça, e isto é cíclico, mas um dia as universidades,aos montes, produzirão mentes que encontrarão a solução, a forma de resolver esta equação.

São muitos os serviços que irão registar muitas ausências: muitos não podem sair das casas (precisariam de barquinhos), outros não vão fazer-se ao local de trabalho porque o transporte não abunda, noutros sítios nem por sombras.

A periferia das cidades de Maputo e Matola se tornou num imenso Xitala-Mati de outros tempos. Dos tempos de ódio e de luta, de esperançar. É destes bairros que saíram os guerreiros, que os tendo conquistado não conseguem dar-lhes a vida. A cada Fevereiro, o mesmo hino. O hino do mal. O hino da desgraça cujos sons veem da Mafalala, de Chamanculo, da Liberdade, de Maxaquene e de todos esses lugares ondeas mesas viram camas, onde as cozinhas deixam de existir, onde já nem faz amor. Não há jeito. Não há como, pá.

Os armeiros que não conseguem entrar os seus campos para levar a produçãoaoscentros de consumo. E estes estão precisando de carnes, de legumes, de cereais, que as casas de restauração e as tascas, estão sendo muito pressionadas. E não tem como satisfazer a gente.

 A chuva não deixa.

A chuva de infortúnios,caramba!

E os leitos dos rios? Neste ritmovão trazer mais desgraça pelo país fora. Vão engravidá-lo de dor. E nos mesmos lugares, mesmas vítimas.

Felizmente abunda gente profissionalizada, previsões precisas. Então alguém se descuida da sua machamba? Pelomenos ainda há isto para as gentes, para esses deserdados da sorte. Que se calhar até melhor seria dizer os “gentios” de todos os tempos, de todos os Fevereiros, mas o que viria daí, não daria para viver. Até da parte daqueles que nesse tempo chamaram gentios aos gentios de então.

Bom, isso não é nada. Continua a chover e a galinha com pintos, em número de nove, está com os filhotes debaixo da mesa protegida pelo parrô. Os galos, as galinhas, os pombos, debaixo da chuva, que é miúda, debicam na imensa mesa de cimento onde todas as manhãs é servida(pelo Atino que hoje ainda não chegou) a refeição do dia. Dos bebedouros hoje não se servem.

Bate uma suave brisa, do sul, e as copas das mangueiras, com muita suavidade, dançam. Os ramos da abacateira e os seus frutos ondulam. Depois são as goiabeiras,os limoeiros e a única laranjeira que sobreviveu ao longo abandono. E agora é o sumo de seu fruto misturado com o de outras frutas que escorre sobre a línguaáspera e desejosa. E depois é o seu estar e a vibração do corpo.

Muito bem, é o que se tem de viver agora e nos tempos que hão-de vir, outros viveres se mostrarão. E haverá testemunhos.

Mas há os peixes que se multiplicam nos rios, nas águas interiores que já se tornaram instituição. Os peixes, a maior fonte de proteína para os habitantes desta pérola do Índico, a fonte de sobrevivência de milhares e milhares de pescadores artesanais de Mucoroje, de Larde, de Inhassoro, de Bambeni, de Massingir. Olha lá, desta imensa costa que há séculos alimenta.

 

É também chuva que dá vida.

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LIMPOPO: Quando tentamos tapar o sol com a peneira  (César Langa-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

 

NÃOé a primeira vez que vou abordar a problemática do livro escolar de distribuição gratuita, ou de venda proibida, se quisermos, para o Ensino Primário. Pode ser que não seja a última vez a discutir este assunto, caso as minhas inquietações prevaleçam, porque abomino hipocrisia institucional ao nível do inadmissível.

Dia 31 de Janeiro o país inteiro testemunhou a abertura do ano lectivo, com cerimónias centrais a acontecerem na província do Niassa e orientadas pelo Presidente da República, Filipe Jacinto Nyusi, com réplicas nas restantes províncias, cada uma à sua maneira, ou com divisão de tarefas e locais entre os governadores e os secretários deEstado, ou então, com as duas figuras se juntando num evento só, tal como aconteceu na província de Sofala.

Dia 4 de Fevereiro foi o dia do arranque, efectivamente, do processo lectivo, para todas as escolas públicas. Aliás, como é de praxe, o primeiro dia do contacto professor-aluno está igualmente reservado para a distribuição do livro escolar, com poucas possibilidades de se prolongar o processo no dia seguinte, para eventuais faltosos, pois grosso modo é: “faltou à primeira aula e não apanhou o livro”.

Entretanto, neste mesmo Moçambique as instituições do ensino privado não arrancaram com o processo lectivo na semana passada, tendo sido marcado para uma semana mais tarde, ou seja, ontem, dia 10 de Janeiro, ainda que na cidade de Xai-Xai as aulas só arranquem hoje, devido à chuva torrencial que começou a cair a partir da noite de domingo até ao fim da manhã de ontem, impossibilitando que os professores e os alunos se fizessem aos respectivos estabelecimentos de ensino.

Como é sabido, a distribuição do livro escolar não abrange as escolas privadas. Mas também é sabido que a venda deste material é proibida. A recomendação que as escolas privadas dão aos encarregados de educação é qualquer coisa como: “virem-se”! E de facto, eles se viram, num processo que, quanto a mim, não devia ser visto nem tido como normal, porque é de consequências nefastas, numa conjuntura que, inevitavelmente, leva a situações de fomento de corrupção e de favorecimentos em detrimento de certas camadas sociais vulneráveis.

Será que as instituições gestoras do ensino, em Moçambique, já pararam para pensar de onde provém o livro usado pelos alunos das escolas privadas, que não cabem na matriz de distribuição gratuita por si desenhada? Se a venda deste livro é proibida sabem qual é o circuito que o leva até às mãos dos meninos das escolas privadas?

 

Depois, o que se comenta é que o atraso, por uma semana, do arranque das aulas, no ensino privado, visava dar espaço para que, após a distribuição do livro nas escolas públicas houvesse espaço para os encarregados de educação dos alunos sem direito a este material “acionarem os seus circuitos”. Se isto confere à verdade ou não, não sei. O que percebo é que, neste processo, não se está a jogar limpo(po).   

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CONVERSAS AOS SÁBADOS

CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO

Administrator: Rogério Sitóe

Administrator: Cezerilo Matuce

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