Director: Lazaro Manhiça

HISTÓRIAS&REFLEXÕES: A armadilha invisível! (ELISEU BENTO)

 

“SABEMOS que os confinamentos são essenciais para suprimir a Covid-19, mas podem encurralar as mulheres com parceiros abusivos. Para muitas mulheres e raparigas, a ameaça é maior onde deviam estar mais seguras: nas suas próprias casas. É necessário um aumento do investimento nos serviços online e das organizações da sociedade civil. Que os governos ponham a segurança das mulheres em primeiro lugar na resposta à pandemia”, pediu no Twitter, António Guterres, Secretário-Geral das Nações Unidas.

Os especialistas das Nações Unidas chamam aviolência doméstica “a epidemia escondida” considerando que as medidas de isolamento social vieram exacerbar as condições para a violência estrutural num espaço que deveria ser de segurança.

Segundo o organismo supra-mundial, os números já eram assustadores antes da pandemia – 249 milhões de mulheres e raparigas dos 15 aos 49 anos foram vítimas de violência nos últimos 12 meses – e subiram em tempo de confinamento. 

Recentemente, o “Público”, jornal português, contou a história de uma mulher indiana nos seguintes termos:

- O marido bateu-lhe pela primeira vez na noite do casamento e desde aí já perdeu a conta às vezes em que ficou com nódoas negras. A indiana Geeta tentou fugir uma vez, mas o marido ameaçou tirar-lhe os filhos. Não desistiu. Teve aulas em segredo e já tinha um plano bem montado para os levar com ela. Mas o confinamento decretado na Índia baralhou-lhe a rota, obrigando-a a ficar isolada com quem a agride numa pequena casa numa zona rural. As crianças têm visto o pai zangado muitas vezes na sua vida, mas piorou nas últimas semanas. Têm-no visto a atirar coisas contra a parede e a puxar-lhe o cabelo.

Relata o jornal que, normalmente, o homem guardava a sua raiva para Geeta, mas começou a gritar com as crianças por pequenas coisas, como deixar um copo no chão. Ela dizia alguma coisa para o distrair das crianças e ficar zangado consigo, mas quanto mais tempo estavam juntos, menos ela conseguia distrai-lo.

Emerge então a questão:
Metade do mundo está em confinamento e o isolamento social é fundamental para combater a pandemia de Covid-19, mas como fazê-lo quando se vive com um agressor? Como se proteger da ameaça que vem de uma das pessoas mais próximas?

A resposta, em forma de advertência, não podia ser mais categórica:

- A quarentena é, para milhões de mulheres, uma armadilha invisível!

Em Wuhan, na China, onde a pandemia começou, os divórcios e a violência doméstica aumentaram substancialmente. Escreve, por sua vez, o “New York Times”.

E cá em “casa”?

Pois, na eventualidade de estas linhas servirem para alguma coisa, rogo que seja para ajudar a alertar aos meus concidadãos sobre a probabilidade dessa“armadilha invisível” numa sociedade já de si redundante em actos de violência doméstica, não raro com contornos tenebrosos.

Digo, se mesmo em condições normais já nos vimos forçados a instituir Gabinetes de Atendimento para dirimir os inúmeros de casos dessa índole, como será no dia em que formos literalmente enclausurados durante dias dentro de casa? Teremos capacidade de gerir todas as nossas emoções? 

Na dúvida, melhor mesmo será evitarmos o tal terrível nível 4. De resto, ele já atormenta, só de sentir a sua iminência.

Contudo, como vai sendo repetido aos quatro ventos, ainda está nas nossas mãos fazermos qualquer coisa e afastarmos tal possibilidade. Basta, tão unicamente, cumprirmos as recomendações e nos resguardarmos.

É constrangedor constatar todos os dias que muitos “irmãos” preferem ignorar tudo. Fazem orelhas moucas. E muitos até são indivíduos com “dois dedos de testa”, que deviam servir como activistas dos eventualmente menos avisados.

A quarentena é, para todos nós, já agora, uma armadilha invisível!

PS- O presente artigo foi por mim publicado há algumas semanas, portanto, quando tudo isto ainda estava mais ou menos a começar. Pela sua actualidade, senti-me repelido a repeti-lo perante os cada vez mais crescentes casos da “epidemia escondida” cá em casa!

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PERCEPCOES: Amigos do Bule (Salomão Muiambo-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

 

MALDITA  Covid-19.

Maldita, porque é mortífera. Maldita, porque nos impõe privações. Já não podemos estar lado a lado, entre amigos, para um “bate papo”, lá na esquina do bairro. Já nãonos podemos abraçar. Não podemos sequer “vegetar” pelo bairro, em pleno fim de semana, porque a maldita Covid-19 está à espreita.

No período pré-Covid, constituíamos um “time” liderado pelo estratega Titininho, e acampávamos ao Bule, explorador de uma remota casa de pasto, passando em revista assuntos do dia-a-dia. Tal casa não tinha nada de especial, mas é lá onde nos sentíamos bem. Enquanto o Bule ordenava as suas secretárias que nos atendessem, a Tia Fefé, a mana Dulce, a mana Vaninha, o Mabasso, o Julamento, (U Zhamile), o mano Mussa, o Carimo, o Farranguane o Ruco (falecido), o Langa, o Guambe e o Julião, e tantos outros, animavam a conversa, às vezes contando anedotas que nos punham às gargalhadas e assim fugindo a realidade.

Mas o Bule, proprietário da casa, era um tipo do outro nível. Amava os seus clientes, mas lhes recusava qualquer crédito. Lembro-me de certa vez em que mobilizámos o velho Xidiminguane para animar o nosso convívio. Nesse dia, o Bule facturou, porque qualquer um que passasse por perto, não só parava, como entrava e pedia qualquer coisa para consumir, enquanto delirava ao som da música do velho artista moçambicano. E o Bule nada pagou ao músico.

Para lá levamos também o antigo seleccionador nacional de futebol, o Mart Noij, depois de uma vitória da equipa de todos nós, frente a um colosso do futebol africano, no majestoso Estádio da Machava. “Todo o mundo” parou para o ver. O estratega desta empreitada foi o “expert” Vitorino Mazuze, aquele rapaz de chapéu que se mete em tudo: no desporto, na cultura, na política, nas artes, enfim...

O Mano Mano, que também treinou os Mambas, passou por lá e vibrou ao ambiente que se vivia. Com reservas, claro, em razão da sua profissão.

Foram bons momentos.

Nos dias que correm, o Bule continua aberto. Mas a maldita Covid-19 roubou-lhe a clientela. Um e outro amigo passa por lá, de forma sorrateira, simplesmente para “matar a saudade”. Mas a vibração acabou. A maldita Covid-19 roubou-a.

Há dias encontrei-me com a Tia Fefé. Não nos saudamos com aquele entusiasmo, obrigados a manter o distanciamento físico e a usar a máscara, em prevenção ao novo coronavírus. Conversámos não tão animadamente como era de desejar. Ela tinha projectado um social, como sói dizer-se, para estes dias, por ocasião do seu aniversário natalício. A maldita Covid-19 esfumou os planos desta donzela.

Entre nós fica a consolação de convívios virtuais, através das diferentes plataformas de comunicação, com particular incidência para o Whatsapp. É melhor que assim seja porque a tal de Covid-19 está a penetrar para as comunidades, podendo provocar uma verdadeira calamidade pública.

Bons tempos virão, acredito.

Maldita Covid-19 e um abraço a todos os amigos do Bule.

Até para a semana!

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DE VEZ EM QUANDO: Um forte abraço ao Luís Siquice (Alfredo Macaringue)

 

EU nunca fui um fervoroso acompanhante dos desenvolvimentos desportivos, em particular o futebol, que tem levado multidões à loucura. Tenho muitas memórias, mas coleccionadas ao acaso nas conversas que sempre tive com os meus amigos. Quase todos eles entendidos na matéria e assim acabo também tendo alguma informação que me capacita a discutir qualquer coisa. Houve tempos que ia aos campos para ver as estrelas da minha era. Ia mais por emoção da juventude, mas iae, no fim, ganhei certa legitimidade para falar sobre o assunto.

São esses momentos da minha vida que ainda me orientam, porque os jogadores que evoluem hoje no nosso campeonato, muitos deles não os conheço. Contrariamente aos de outrora, que eram conhecidos por todos, de cor e salteado, mesmo por aqueles que não tinham nada a ver com o futebol. Os seus nomes eram tão sonantes que não era possível não conhecê-los.

Na senda do facebook, acabei dando com um “post” de Luís Siquice, o “artilheiro” do Costa do Sol, queixando-se de dores na perna, o que é resultado dos ossos do ofício. Lembro-me que foi obrigado a deixar o futebol em consequência de uma grave lesão contraída numa das pernas em pleno jogo.

Acompanhei as  reacções inúmeras dos admiradores de Luís, e quase todas elas eram no sentido de lhedesejar rápidas melhoras, sem deixar, porém, de felicitá-lo por tudo o que fez. Muitos deles descreviam momentos históricos de quando o craque evoluía nos campos, lembrando outras estrelas que jogavam ao lado dele, como é o caso do seu irmão mais novo, o Ramos. Isso significa muita coisa. Um reconhecimento a uma figura que o tempo nega em apagar.

Luís Siquice faz lembrar um tempo em que as pessoas iam ao Estádio da Machava a pé, ou ao campo do Costa do Sol, caminhando em grupos na estrada. Iam e voltavam, sem se importar porque tinham a certeza de que iam assistir a um bom jogo de futebol, com remates de empenar os postes e tudo. Luís fez-me lembrar, quando o vi nofacebook, o delírio dos “sócios da federação”, que tinham uma zona reservada nas bancadas. Cabia aos miúdos a maior fatia da claque, então o homem que aparece aqui no “post” era um dos responsáveis de toda aquela festa.

Li todas as reacções que eram dirigidas ao craque, com muito carinho e respeito por um homem humilde, mas perigoso quando estivesse com a bola nos pés. E assim eu também não resisti, escrevi qualquer coisa como, um forte abraço campeão!

A luta continua!

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Retalhos e Farrapos: Madeira e zinco (Hélio Nguane)

 

HOJE senti a minha mão trémula, vi a análise médica e percebi que é pouco o tempo que tenho na terra. Decidi voltar ao meu bairro, olhar os meus pertences e contemplar um pedaço de mim.

Entrei no meu quarto de criança, sentei-me na cama feita com palha, molas e sacos de sisal. Partilhei alguns pensamentos com as pulgas, meus sonhos saltavam, propagavam-se em cabeças sonhadoras, sugavam alguns instantes de reflexão e morriam nas unhas de mulheres sem interesse.

Abri a minha caixa, onde empilhava vários textos e comecei a ler:

Passa-noite

É preto, é preta, é preta, é escura, é negra a asa que sobrevoa. No chão, as famílias vivem, as mães cuidam das suas crias. É insaciável a dor deste papel, nem a caneta, o lápis, a pena da ave podem alimentar este desejo.

É concreta esta sede. Aqui em baixo, nas trevas, na desorganização dos becos do meu bairro a desgraça não passa, habita, ficou residência. É firme o desejo de mudar-me daqui para um lugar melhor, onde as mães cuidam dos pintainhos, sem temer as garras da ave de rapina que leva os filhos a sobrevoar o bairro, a apreciar prazeres sólidos, até sua carne ser consumida e sobrarem ossos que caiem como a pena do Passa Noite. (2004)

Mafalala (1)

A podridão ronda a Mafalala, a pobreza e a solidão se instalam. Becos conduzem a devassidão na Mafalala, imundície corrupção dos corpos e das mentes, usurpadas e dependentes da pobreza surpreendente da Mafalala (1987)

Olhei para os meus textos inacabados, reparei para a minha visão do mundo e ganhei forças para viver os meus últimos dias. Com os dedos ainda trémulos, peguei numa caneta velha, perdida em baixo da cama, rasguei um dos pedaços da caixa e terminei o texto, consciente de que o meu combate com Deus está próximo do fim, estou no combate 42 e só me sobram seis minutos nesta luta. Agora estou nas cordas, mas darei luta, vou aguentar firme, porque acredito na potência da minha direita. Vou acertar no queixo dele e viver mais alguns anos.

Mafalala (2)

O cimento está enferrujado, os pregos, os prédios testemunham a extinção das casas provisórias. A consciência do bairro hoje é de alvenaria, só os poetas insistem em falar da Madeira e do Zinco.

As nuvens precipitam as beatas que se deitam na areia húmida. Hoje regressei e sairei com os meus próprios pés. Amanhã temo ser possuído pela podridão e imundície que se instalaram em alguns compartimentos do meu eu. (2020)

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Dialogando: A felicitação de Trump… (Mouzinho de Albuquerque)

 

SEMANA passada foi notícia de grande destaque em vários órgãos de comunicação social o facto de o Presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump, ter felicitado ao povo moçambicano pela passagem do quadragésimo quinto aniversário da proclamação da independência nacional, através de uma mensagem endereçada ao seu homólogo Filipe Nyusi.

Dizem os dicionários que felicitação é a acção de comemorar o sucesso de alguém ou de algo.

Se na realidade o que disse Trump na sua mensagem congratulante corresponde a isso, o facto é que a felicitação dele suscitou grande surpresa ou diferentes reacções no seio dos moçambicanos, claro, atentos, pelo menos é isso que se notou cá do sítio, e que motivou a produção desta crónica.

Mas será que as reacções devem-se, talvez porque nunca esperávamos que fossemos felicitados por Trump, o presidente mais importante e “patrão” do mundo, e tendo em conta o seu posicionamento ou por outras razões, sabido de antemão que desde que ele chegou à Casa Branca transparece não estar muito interessado por África?

Aliás, parece indesmentível que o destaque que se deu à felicitação do líder norte-americano ao nosso país em relação as outras feitas por respeitadas personalidades estrangeiras parece ser visto como não sendo exemplo para os valores que se prezam nas nossas sociedade, sobretudo de igualdade e diversidade. Terá sido apenas o reflexo da importância singular deste homem no planeta, porque o contrário osmedia teriam conferido a mesma visibilidade às outras congratulações. 

Acreditando no que nos dizem os dicionários, podemos ficar satisfeitos pela congratulação, mesmo sabendo que ele (Trump), é imprevisível na tomada das suas decisões, esperamos que a felicitação do poderoso Presidente dos EUA ao povo negro moçambicano, signifique também uma tomada de posicionamento favorável dele ao movimento que está contra o racismo sistemático e brutalidade policial contra os afro-americanos, o Black Lives Mater (Vidas Negras Importam).

Se bem que os Estados Unidos da América têm também relações de amizade e cooperação privilegiadas com o nosso país, segundo terá dito Trump, então queremos aproveitar este facto para dizer ao Presidente norte-americano, que a nossa esperança, como africanos, é que este seja igualmente um momento de repensar a América, na perspectiva de resolver o antigo problema do racismo e violência policial contra negros neste país para que uma congratulação como a que ele fez agora a nós, negros (e não só) moçambicanos, seja verdadeiramente merecida em África.

Queremos igualmente aproveitar esta rara “oportunidade”, criada pelo dirigente americano, para lamentarmos, dizendo que é pena que até agora o legado de Martin Luther King, lutador histórico pelos direitos cívicos nos Estados Unidos da América ainda não tenha sido suficiente para que o grande país do Tio Sam superasse, efectivamente, os antigos e graves problemas da desigualdade racial e social e as injustiças no sistema da administração da justiça.

 A nossa esperança é que, depois da morte do George Floyd nas mãos de um Polícia (branco), haja mudança das coisas nos Estados Unidos. Ainda bem que esta morte teve um impacto planetário, com sucessivos protestos contra a violência policial e o racismo na sociedade americana e em todo o mundo.

É necessário destacar aqui o facto de o grupo de 54 países africanos nas Nações Unidas ter pedido, há poucos dias, um debate sobre a brutalidade com que são confrontadas diariamente as pessoas de descendência africana em vários países do mundo, particularmente nos Estados Unidos da América de Donald Trump. Falando sobre o debate, a alta comissária dos Direitos Humanos, na ONU, Mechele Bachelet, defendeu uma acção enérgica em todo o mundo, tanto para reformar ou reinventar as instituições e órgãos de aplicação da lei, como para abordar o racismo generalizado.

Contudo, é prestigiante para os negros, não só do país de Trump, como de outros países e sobretudo africanos, saber que o administrador da NASA (Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço), Jim Bridenstine, desafiou particularmente os norte-americanos a combater o racismo, ao anunciar, recentemente, o rebaptismo da sede da agência em Washington DC, em homenagem à Mary W. Jackson, a primeira engenheira negra a integrar a equipa da agência espacial e cujo trabalho foi essencial para ajudar os astronautas dos EUA a viajar ao espaço.

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