Director: Júlio Manjate

NUM'VAL PENA: O dia em que Victor “Mombe” desancou Zito “Fu Sheng”  (Leonel Abranches)

 

O JOGO fora marcado para o terreno baldio, mesmo ao lado do Centro de Saúde dos Caminhos de Ferro. Capitania contra Caminhos de Ferro. A rivalidade era tão grande que o anúncio do jogo até passou pela rádio. Grande expectativa reinava, sobretudo porque a malta da Capitania tinha a fama de “putos-não-me-toques”, enquanto o pessoal dos Caminhos de Ferro era tido como arruaceiro e que resolvia as suas contendas com recurso a porrada. Os jogos entre bairros eram quase sempre motivo para grande algazarra pela cidade. As namoradas faziam ruidosas claques e aclamavam os seus heróis, que se desfaziam em truques e triques para a plateia. Na equipa da Capitania destacavam-se pela sua maestria no trato da bola Lourindo “Eusébio”, o guarda redes Raul do Sónio, o indiano Mayur. Zito “Fu Sheng” era a arma secreta para quando o jogo esquentasse e fosse necessário resolver-se à pancada. Aliás, quase sempre terminavam em pancada. Zito “Fu Sheng” era um dos gajos mais temidos da zona. Nem sequer era avantajado, mas era bastante esguio. Tinha a fama de serpentear o adversário, enquanto aplicava sucessivos e portentosos ganchos. Aliás, a alcunha “Fu Sheng” era mesmo resultado da sua matreirice, que fazia lembrar a lenda chinesa das artes marciais, Alexandre Fu Cheng. Gaba-se de ser uma espécie de clone do astro chinês e era visto treinando-se sozinho todos os dias ao fim da tarde, replicando gestos cadenciados de artes marciais e fungando por todos os poros. Zito “Fu Sheng” não era um gajo para brincadeiras. Nunca ninguém o viu a sorrir, carancudo que nem uma porta. A equipa dos Caminhos de Ferro era mais personalizada, gajos grandes, espadaúdos, não discutiam com o árbitro, impunham as suas regras. Eram capitaneados por Victor “Mombe”, um gajo que mais parecia um touro enraivecido, atropelava tudo e todos que apareciam pela frente e tinha sempre razão. Ao fim da primeira parte da peleja já a Capitania vencia por concludentes 3-0, fruto do melhor entrosamento, requinte e esclarecimento no trato da bola. Iniciou a segunda parte e a Capitania elevou o “score” para 4-0, ante uma falanje de apoio bastante ruidosa e orgulhosa. De repente Victor “Mombe” zangou-se e decidiu alterar as regras do jogo. Interrompe uma jogada e anuncia:

- “Vamos lutar! Vamos ‘faitar’! Quem levar perdeu o jogo.”

Levantou-se um burburinho que se foi generalizando pelo público.

- “Qual que é o problema?! Estão com medo? Maricas!” -e deixou escapar de forma provocante uma estrondosa e cínica gargalhada.

Joaquim Boboló, o mais irrequieto da “Capitania”, resolve agitar as águas e proclama:

- “Você não é nada Mombe, nós não temos medo de ti... aceitamos o desafio. Escolhe o teu homem e nós escolhemos o nosso, eles que se enfrentem no círculo do meio-campo. Quem sair do círculo perde...”.

- “Boboló, eu mesmo sou o escolhido!” - autoproclamou-se Victor Mombe.

- “O nosso homem é Zito Fu Sheng!”- indicou Boboló, ao mesmo tempo que o indicado, aclamado com palmas e palmadas nas costas, se desfazia da camisa e de tronco nu começou a exercitar-se estalando ruidosamente os ossos enquanto meneava a cabeça de um lado para o outro e fazia triplas flexões. Era o confiado da malta da Capitania. A excitação tomou conta do diminuto campo do hospital. Alguém sussurrou suficientemente alto para se ouvir:

- “Ainda bem que estamos perto do hospital. Mombe vai de certeza parar a uma maca. O sacana do Fu Sheng vai esmagar esse mulato... ”

Os dois posicionaram-se no círculo e a torcida foi tomada pelo transe. O “faite” começou e “Fu Sheng”, confiante, tomou a iniciativa, com piruetas acrobáticas, cruzar e descruzar das palmas das mãos e uivos sonoros característicos de karatecas. Victor Mombe esperou pacientemente e tal como uma cobra predadora identificou o momento certo para pegar “Fu Sheng” com as suas descomunais manápulas. Com uma violenta gravata elevou “Fu Sheng” para uma altura de quase dois metros e esticou uma portentosa chapada que deixou evidentes marcas de destruição na cavidade bucal do karateca. Um silêncio sepulcral caiu sobre o campo, Zito “Fu Sheng”, a lenda, estava a ser desancado por Victor “Mombe”, o arruaceiro. Ainda tentou levantar-se mas levou um fulminante dardo nas vértebras torácicas mesmo debaixo das axilas do lado esquerdo. “Fu Sheng” recuou incrédulo. Estava zonzo e com evidentes sinais de falta de ar. Ensaiou o famoso “golpe da cegonha”, com um pé levantado em forma de quatro e as palmas da mão desenhando enigmaticamente uma cegonha, mas Mombe replicou o gancho e o karateca soltou um gemido surdo de dor, perdeu a noção dos pontos cardeais e caiu de bruços desmaiado.

Nada mais havia a fazer. A equipa da Capitania perdeu o jogo, mesmo com o placard marcando 4-0!

E a lenda de Zito “Fu Sheng” terminou de forma inglória.

CONVERSAS AOS SÁBADOS

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Presidente: Bento Baloi

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Administrator: Cezerilo Matuce

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