Retalhos e Farrapos: Hélio só quer ser feliz 

 

Andei nos becos escuros de Minkadjuine, desafiei alguns labirintos da Mafalala, a caminho de casa. Nas costas do campinho, encontrei um homem estatelado, uma mulher desesperada e cinco adolescentes hesitantes a contemplarem a situação.

– Vamos levá-lo para a sua casa – disse o gordinho Paulinho.

– Não, ele discutiu com a família hoje, deram-lhe uma intimação – disse a roliça dona Ana.

– Vamos deixá-lo aqui. Deve ser bebida, vai acordar este – disparou o muçulmano Mussa.  

– Não é. Se fosse sentiríamos o cheiro – rematou o sereno Leonel.

José limitou-se a acompanhar a conversa.

– Ele não gosta do copo, mas quando saí vi que ele tinha um cigarro na boca e estava sem celular.

– “Drunfaram” o freak – gritaram os adolescentes em coro.

– Ele não gosta do copo, estava preocupado – resmungou Ana.

– É melhor carregarmos… – falou em voz baixa o indeciso Jeremias.

– Vamos tirar o homem daí, o chão está frio. É uma pessoa… temos de fazer algo – era eu a intervir.

Percebi que Paulinho, Leonel, José e Jeremias sentiram-se tocados, mas faltava algo. Mussa reforçou o meu pedido.

– Vamos carregar o homem. Vou pagar sumo a todos.

Eles ficaram em silêncio, aproximaram-se do indivíduo estatelado, como quem desafia carregar um saco de cimento, sem argumentos, sem forças e sem saber onde guardar.

Agi, aproximei-me, coordenei as operações:

– Uns carregam-no pelos braços, um cada, e outros pelos pés, e um fica na zona da bacia.

As palavras não eram acatadas, então decidifazer. Carreguei o braço direito e todos começaram a dançar a música. Todosnão, Mussa observava o trabalho e lançava piadas sem graça, sempre que tinha oportunidade. Dava ordens e motivava Paulito com o sumo. Dona Ana dava as indicações.

Pessoa inconsciente é pesada, sem trocadilhos. No percurso mudávamos de posição. Descansámos por cinco vezes. Numa das pausas o inconsciente gritou em xichangana: “Estão a me roubar. Parem de me roubar! Me deixem!”.

No meio do percurso percebi que todos andavam em direcção à minha casa. Preocupado, perguntei, para onde levam o homem.

– Hélio vive por ali, perto da estrada velha, tem um desvio.

– Hélio? Ele chama-se Hélio?

– Sim – disseram todos em coro.

Continuei a carregar o homem e uma voz disse para mim mesmo: “Será que este Hélio não é você?”. Olhei para a face do homem, percebi que não era eu. Mas outra voz gritou: “não estás a perceber, pode ser Deus a fazer das suas. Podes ter caído e Deus está a te fazer acompanhar o teu próprio percurso”, dizia outra vozinha.

– Virámos por aqui. A tia dele vive nesta casa. Não podemos levá-lo à casa da esposa dele, pois estão nuns barulhos.

Fiquei tranquilo quando percebi que aquele Hélio habitava na mesma casa que eu. Mas sabe, o que pensei era infundado, pois eles vão à casa da tia dele e não na casa do Hélio.

Chegámos a tal casa, abrimos a porta, suportámos o homem para que estivesse em pé. E ele ficou. Levaram esteira e colocaram-na no chão e despejámos o homem ali.

– E o sumo? – interrogou Paulinho

– Que sumo? – respondeu como uma indagação o muçulmano.

– O sumo que prometeste.

– Vamos, tu bebes e um dia podem colocar um comprimido na tua bebida e vamos te carregar também.

Saímos da casa. Na saída, Paulinho voltou a falar. “Pedimos jantar. Vi xima. Estamos com fome, ele pesa, sabem?”, disparatou. Mussa, prontamente, respondeu, “estás a nos envergonhar, cala, pha!”.

Tudo estava terminado. Quem disse, mais uma vez fomos solicitados.

– O Hélio está a dizer coisas que estão a me assustar – disse a tia, que no fundo não queria o sobrinho em sua casa.

Chegámos ao local e ele já estava semi-consciente, falava que queria a filha, a esposa. “Tudo está mal. Primeiro perdi o meu pequeno. Sou forte, mas estão a me tirar tudo”, dizia, movendo-se como um bailarino de dança contemporânea. Fazia movimentos bruscos, depois se encolhia. “Estou sem forças nos pés... quero ser feliz eu!”, dizia. Um dos cinco adolescentes explicou-me que parte das reacções é dos efeitos de “drunfos”.

Chegou-se a uma conclusão, o Hélio só vai melhorar se tiver o filho e a esposa. A tia queria que levássemos o homem da casa dela para o local, mas acabei dizendo: “Ele está inconsciente. Chamem vocês a esposa e o filho”, sentenciei.

Depois de 20 minutos a esposa chegou. Segundos antes da chegada, a tia do Hélio entrou no interior da casa, para não ter um frente a frente. Percebi que os adolescentes já não estavam ali. Os cunhados de Hélio tomaram conta da situação. O mais forte levou o homem nas costas, como se carregasse um saco de 10 quilos de arroz e o resto da população seguiu-lhe.

E eu?

Segui o meu rumo e no caminho as palavras do inconsciente gritavam: “Eu só quero…” 

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