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Categoria: Opinião & Análise
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DE VEZ EM QUANDO: Vamos bebendo um copo!   (Alfredo Macaringue)

 

 

INFORMAÇÕES postas a circular nos diversos órgãos de comunicação social nacionais e estrangeiros confortam-nos dizendo que estas eleições pelo menos foram pacíficas. O que vier depois é outra etapa. Mas a verdade é que, mesmo tendo havido escaramuças aqui e ali, são de pequena monta. Não tiram o mérito à boa organização do pleito. E espera-se que este ambiente continue porque estamos cansados de guerra. Que não nos leva a lado nenhum, senão à desgraça.

Apesar destas informações tranquilizadoras, o meu amigo Matsena prefere não fazer comentários. Até porque o seu feitio é de uma pessoa pessimista, que não acredita em nada antes de ver as coisas no concreto. Lembro-me, por exemplo, quando acabava de chegar Abel Xavier, e toda a gente aplaudia, que Matsena já me dizia que ia esperar para ver. E quando foi demitido o antigo seleccionador nacional veio ter comigo e rematou: “eu não te disse?”.

O meu amigo não muda. Não se deixa levar pela onda das emoções. É por isso que, mesmo depois de ouvir as notícias falando de pacifismo durante as eleições, continua a dizer o seguinte: “meu caro, a melhor coisa é irmos bebendo um copo numa boa, depois no fim iremos ver se eles estão certos ou não”.

Entretanto, o que dá alguma esperança no comportamento do meu amigo, apesar da sua teimosia, é que ele acredita que todos têm capacidade de se regenerar. Segundo diz, podemos cometer muitos erros, e isso é próprio do homem, mas um dia acabamos nos corrigindo, ou aceitando que alguém nos puxe para outro caminho. Matsena tem fé de que todo este cenário de nos voltarmos uns contra os outros, sendo irmãos, um dia vai passar, “sentaremos juntos na mesma esteira e esqueceremos tudo isto”. Mas enquanto esse dia não chega, o tipo está no seu canto, com as mesmas palavras: “enquanto esperamos pela hora da verdade, vamos bebendo um copo”.

Não há melhor coisa que conviver com Matsena, porque, apesar de tudo, ele mantém um forte sentido de humor. E esse pode ser um grande contributo para que até aqui se mantenha firme e alegre. Nunca vocifera. Não maldiz. Não injuria. É por isso que está sempre em paz, mesmo sem acreditar muito no futuro.

O que dói ao meu amigo, de certa forma, segundo ele, é que as pessoas, muitas delas, andam vestidas de pele de ovelha, pagam-te um copo, batem papo contigo, dão-te uma palmadinha nas costas, mas amanhã tu vais descobrir que estavas diante de uma hiena. Ele fala tudo isso com um sorriso sincero nos lábios. Nota-se facilmente que é uma pessoa de bem. Que deseja o bem para todos, mesmo que não tenha nada para partilhar, a não ser o copo e a conversa fiada.

É essa parte que me prende ao Matsena: a sua honestidade. Aliás, nem que não seja para beber, invisto sempre que houver oportunidade o meu tempo para escutar histórias da carochinha contadas por ele. Mas, claro, acabamos bebendo sempre um copo!