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Categoria: Opinião & Análise
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Acento tónico: Mediocridade omnipresente - Júlio Manjate: (Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

SEMPRE achei que aquela prática de o funcionário dividir a sua atenção entre o público e o seu telefone celular, nunca podia dar certo. Há dias tirei a “prova dos nove”!

Confesso que fiquei amarelo, de irritação, ao perceber que, afinal, a mediocridade é omnipresente, que está em todo o lugar, até mesmo naqueles onde a gente nunca imagina que possa estar representada.

Há dias conversei sobre isto com os meus estudantes, aproveitando para dar uma achega àqueles que, sistematicamente, puxam pelo telefone celular, passando a dividir a sua atenção entre o tema em debate na aula e o conteúdo das mensagens que vão chegando através dos seus aparelhos Smarth... No debate que se seguiu, houve, entre os estudantes, quem sugerisse que “o docente estava a ir na contramão”, que nada mais restava à humanidade senão render-se ao poder da internet e das redes sociais.

“… nós usamos os telefones como um recurso de pesquisa e até para aceder aos materiais de leitura que o docente nos recomenda… seria penalizador vedar o uso de telemóveis na sala de aula…”. E foi com argumentos deste tipo que acabei percebendo o quanto a internet “dá muito jeito” a esta malta.

Voltei ao “sermão”: Lembrei que muitos estudantes se aproveitam dessa prerrogativa para, em plena aula, usarem o telemóvel em coisas fúteis, em conversas que só lhes tiram concentração sobre o essencial, que é participar no debate que faz a aula. Aproveitei falar da importância de prestarmos o máximo de atenção em tudo que fazemos na vida, se disso quisermos obter algum resultado que nos orgulhe.

Chegados aqui, contei-lhes a história de uma funcionária do balcão de um grande banco (ou banco grande?) da praça, a tal que me forneceu a prova dos nove.

Quando me aproximei do balcão, ela já tinha o telemóvel na mão. Puxara por ele logo que saiu o cliente que me antecedeu. Teclou algumas dezenas de vezes enquanto esboçava um sorrisinho para aquela minúscula tela. “Quanta loucura”. Disse para os meus botões. Esperei até que, finalmente, levantou a cabeça para me encarar.

- Depósito. Vou fazer dois depósitos. – disse-lhe enquanto lhe entregava mil e quinhentos meticais e um bilhete onde estava escrito o número da conta a creditar, os valores e o a explicação das operações.

No caso, eram 300 meticais para uma taxa de exame, e 1200 para propina. Tudo para a mesma conta. Expliquei verbalmente e ela tinha tudo escrito, à sua frente.

Aparentemente do nada, a moça voltou a puxar pelo telefone e teclou mais algumas dezenas de vezes. Depois voltou ao meu assunto, mas com os olhos sempre a espiar aquele pequeno écran.

Quando concluiu, entregou-me os dois talões. Estava tudo trocado: 200 meticais para a taxa de exame, e 1300 meticais para a propina…

- … mas, meu senhor, isso não faz diferença. Afinal é tudo na mesma conta… - tentou explicar-se quando lhe exigi que fizesse as coisas tal como as pedi. Escusado será dizer que foi preciso chegar ao gerente do balcão para aquela funcionária perceber o básico do que não tinha percebido por falta de… atenção.

Ainda sobre a atenção que devemos no nosso trabalho, falei aos meus estudantes sobre do médico que divide atenção entre o paciente e o WhatsApp, Facebook, Instagram ou qualquer outra “paranóia” lá das redes sociais. Imaginando que mesmo desatento, este médico não falha na prescrição do medicamento, mas o risco para este paciente vai continuar se for encontrar, na farmácia, um técnico de celular em punho, envolvido na preparação de um xitique ou em qualquer outra paródia. É capaz de trocar tudo, identificar os fármacos por semelhança, falhar na posologia, e conduzir o paciente a situações piores…

De facto, ultimamente, a mediocridade mais parece uma qualidade que as instituições se esforçam por acrescentar aos serviços que oferecem. Nalguns casos, a mediocridade aparece de tal forma associada à ignorância, que se torna difícil perceber quando se está perante uma ou outra, ou quando com as duas, juntas.

Talvez seja por isso que, por vezes a gente até reconhece a presença da mediocridade em determinado serviço, mas aceita-a porque lá no fundo de nós, funciona uma espécie de “Tribunal de Apelação”, que vai perdoando, religiosamente, todas as asneiras que se cometem, e sempre com um álibi que quase já virou refrão: “…aqui até vale a pena… no lugar X, é pior…”.

E lá vamos nós, normalizando a mediocridade.