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Categoria: Opinião & Análise
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Retalhos e Farrapos: Mariamo vende chamussas na baixa (Hélio Nguane-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

 

TODOS já sabem, menos o esposo. A notícia espalhou-se pelo bairro, todas as bocas comentam, a informação é o líquido que dá mais potência às más-línguas. Hassan ignorou como pode, fechou os ouvidos, mas já não há como contornar, em cada beco que passa escuta:

- Mariamo vende chamussa na baixa para alimentar a família.

Hassan já não pode contornar a informação, como se desvia da estrada para se chegar à meta por via dos becos. Tem de falar com a esposa, procurar saber porque ela vende. Mas ele sabe que já há cinco anos que não tem emprego e não falta comida à mesa.

Enquanto caminha para a casa, faz cálculos, soma as míseras migalhas que ganha, eventualmente, com o trabalho de biscateiro: serralheiro, carpinteiro, pintor ou ajudante. Olha para o calendário, percebe que estamos em Dezembro, mas desde Maio que não teve a honra de contar meticais ofertados pelos seus trabalhos.

O esposo já está próximo de casa, sabe que quando gritar demais, tomar uma atitude drástica os filhos podem ficar sem comida e estará estragada a festa do final do ano. Caminha lento, faltam cinco passos para entrar emcasa.

No primeiro passo jura que vai pedir separação, mas antes vai jogar as roupas da esposa fora da casa e vai humilha-la com gritos e bofetadas para limpar a sua honra. No segundo passo diz que vai pedir separação de duas semanas para a mulher encontrar outro lar. No terceiro pensa em dizer que aceita que ela viva na casa, mas não vai dividir a mesma cama com uma esposa que partilha o corpo com outros homens. No segundo passo cogita aceitardormirna mesma cama, dividir o mesmo quarto, mas sente-se na obrigação de armar uma discussão para que os vizinhos saibam quem manda na casa. No último passo rende-se, pensa em pedir perdão e agradecer por ter uma mulher que vende a chamussa para o bem-estar da casa.

Abre a porta, pergunta por Mariamo e os filhos dizem que ela já não está em casa, acaba de sair. Hassan sai às pressas, toma o transporte e se vê à baixa da cidade. Olha para as mulheres à venda, cobiça os corpos expostos, rezando para não cruzar com o da esposa. Sem radar, vagueia por cerca de uma hora sem obter resultados positivos. Já sem esperança, repara para a esposa, ladeada por três prostitutas de baixo nível. O esposo olha para o cenário, pensa em estufar o peito e tirar a mulher daquele local com chapadas, mas sabe que as três mocinhas estancariam a sua raiva e um guarda que está a dois metros até poderia, se necessário, usar a sua arma, pois não existem assuntos de família na Rua do Bagamoyo.

Hassan aproxima-se, pega a mulher pelo braço e inicia um diálogo.

- Porquê vendes chamussa aqui?

- Tem mais clientes aqui. Não posso deixar minha família passar fome.

- Mas porquê vendes aqui, Mariamo?

- Hassanito, Hassanito, Hassanito…

- Mas porquê…

Os ânimos estavam exaltados, Hassan não queria ouvir explicações. Para silencia-lo, Mariamo tirou um plástico de moedas e notas e disse:

- Hoje vendi 57 chamussas… pega neste dinheiro e me ajuda a carregar a bacia,o fogão. As chamussas que sobraram vamos comer no matabicho.