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Categoria: Opinião & Análise
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PERCEPÇÕES: Cafezinho! (Salomão Muiambo-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

 

NO bairro, todos o tratam por Cafezinho. Não que goste de café. Bebe-o,ocasionalmente. Foi empregado de um colono que o mandava preparar, dia e noite, um cafezinho com um conhaque à mistura, enquanto fumava pensativamente o seu charuto.

Quando servisse a xícara de café, o patrão se sentia noutra galáxia. Dizia ele que o café aquecia-lhe a alma. Aliás, assim o dizem os apreciadores desta bebida.

O homenzinho orgulhava-se de ser exímio conhecedor do modo como se prepara o café: puro, com leite, coado ou expresso, variações que “capturavam” o paladar dos apreciadores do produto, sendo primeiro, o seu patrão.

“Cada variação tem o seu segredo”, orgulha-se, ainda hoje, quatro décadas após a rescisão com o colono, desgostoso com a independência de Moçambique.

Com a partida do “boss”, sabe-se lá para Lisboa ou Joanesburgo ou outro lugar fora de Moçambique, o homem experimentou momentos de angústia,ligados à falta de emprego. Escapou à chamada “Operação Produção” que evacuou muitos cidadãos desempregados das terras de origem para o longínquo Niassa, a fim de produzirem comida. Muitos ficaram por lá, depois de constituírem famílias, muitos outros perderam a vida e outros ainda regressaram às terras de origens depois do Acordo Geral de Paz.

Cafezinho escapou à terrível operação, mas não ao recrutamento para a obrigatoriedade do serviço militar. Numa das operações “tira-camisa” foi compulsivamente alistado, treinado e transformado em “leão da floresta” para perseguir os então “matsangas” que aterrorizavam o país. Durante anos travou duros combates contra os “bandidos armados” de então, alguns dos quais inesquecíveis, tendo, entre os anos 1992/1994, regressado à vida civil, na sequência do fim do conflito armado.

A reinserção social não foi fácil. Todos o temiam, auto-intitulado hércules da zona, portanto, possuidor de uma força descomunal. Mas, na verdade, não batia em ninguém, era sim, um brincalhão que escolheu como palavra preferida, o cafezinho. Onde quer que estivesse, fizesse o que fizesse, pronunciava sempre a palavra cafezinho. Lembrava-se assim dos anos em que trabalhou com o colono, servindo-lhe sempre “um cafezinho”, com todas as variações na sua preparação.

Abatido pela velhice, qual caduco, ainda conseguiu uma ocupação como guarda, algures numa quinta, valendo-se da experiência de ter sido combatente da luta pela defesa da soberania. Porém, o seu emprego terminou abruptamente, quando o patrão descobriu que, para além do “bom” salário, Cafezinho “sacrificava” em média, por dia, uma galinha da sua criação apenas para o matabicho.

Cafezinhoanda agora de rua em rua, de canelas nuas, irrompidas de sapatos cambados, pedindo emprego. E, por onde passa, todos deliram com as suas histórias, mas o delírio não sacia a fome do homenzinho.

Boa sorte Cafezinho.

Até para a semana!