Director: Júlio Manjate

De vez em quando: Estamos a chegar ao fim - Alfredo Macaringue

Se prestarem atenção, vão notar que, a partir de hoje, 1 de Novembro, o cheiro da atmosfera vai ser diferente. É natural que assim seja, porque estamos praticamente no limiar do fim do ano. É altura de ajuste de contas. Ou ainda de nos arrependermos por termos perdido a oportunidade de fazer alguma coisa, durante todo este tempo. Mas de qualquer forma teremos de nos sentir abençoados por haver chegado até aqui, porque há muitos que ficaram pelo caminho.

Daqui a pouco as montras estarão repletas de luzes. Irão começar as correrias para as compras, para aqueles que têm alguma coisa no bolso, porque a maioria não tem nada. Esses vão se contentar com baizanas envenenadas com ração química, que vai nos matando devagar. E talvez alguma bebida para fingir que são felizes. Quando efectivamente a pobreza é que lhes comanda.

Nós outros iremos delirar na contemplação do espectáculo de fogo de artifício na passagem do ano. Enchendo os céus de Maputo. E, a partir do dia 2 de Janeiro, ainda com ressaca, vamos perceber que não mudou nada. Os “chapas” continuarão os mesmos, apinhando pessoas como se fossem manadas de bois. Se calhar estaremos com chuvas abundantes na cidade, e aí vamos compreender que o Xipamanine continua o mesmo, lamacento e repugnante por esse tempo.

O que vai ainda aumentar a nossa desgraça é que já não teremos nada nos bolsos. Teremos gasto tudo o que não temos. Acima disso, virá a chatice de ter de comprar material escolar para as crianças e o respectivo uniforme. Será uma ginástica danada. E já ninguém se vai lembrar de que há pouco tempo todos gritámos “῾hoyo-hoyo’, 2020!”, com bebedeiras desmedidas. Teremos esquecido que nos abraçámos efusivamente para festejar o recebimento do ano novo. Mas há uma coisa que vai ficar indisfarçável. Não teremos nada na dispensa. Nem nos bolsos. E o que nos vai restar é começar tudo da estaca zero.

Seja como for, quando chega este tempo, a partir de hoje até ao dia 1 de Janeiro, o ar que respiramos parece outro. É mais fresco. Anima, mesmo sem termos conseguido juntar nada. Porque acreditamos que o próximo ano será melhor. É sempre assim, num círculo vicioso que, entretanto, nos mantém vivos por dentro. Estamos sempre a repetir as mesmas palavras, e cada vez que as repetimos, parecem novas.

As famílias vão estar juntas. Cada um vai trazer o pouco que tem, e quando esse pouco-pouco se junta, vai parecer muito. Aliás, o que torna os comeretes e beberetes mais abundantes não é a sua quantidade, mas a alegria de as pessoas estarem juntas, cantando e rindo. Isso é que faz a festa ser abastada. Ainda bem que nós, os moçambicanos, somos assim, capazes de superar as nossas necessidades, pela força do espírito, e da predisposição de vivermos e festejarmos em grupo. É por isso que as reuniões vão começar daqui a pouco, para ver o que é que existe para o Natal e fim do ano. O resto há-de se ver lá para frente!

A luta continua!

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Retalhos e Farrapos: Não há internet para África (2) - Hélio Nguane

A água fria gela a vontade de lavar o meu corpo. Sinto a minha boca pesada, ganho forças para enfrentar a água morna com colgate. Penso mil vezes, o patrão ontem deixou a pastelaria zangado, Somali fez contas e mostrou que faltava dinheiro. Eu mostrei as minhas contas e mostrei que poucos clientes aparecem na estabelecimento, porque as pessoas querem beber, fumar cigarros e rizla.

Aqui na zona, banca não precisa de ser bonita, basta ter cigarro e rizla que os clientes vêm comprar. Até perto da escola primária nascem bancas que vendem cigarros, rizla e bebidas secas. Mas o patrão quer continuar a vender chamussas com piripíri, sumo, refresco, bolos e pedaços de pizza.

Tenho de tomar banho, o patrão vem na estabelecimento hoje. Nas quartas-feiras ele sempre vem na loja, observa o nosso trabalho e, às 12.00 horas, vai à mesquita. Volta, olha o que estamos a fazer e, de novo, volta à mesquita.

O meu boise gosta de mim, nas sextas-feiras oferece-me coisas. Até já me convidou para a mesquita. Eu gosto de estar lá, mas em tempo de jejum, porque se come muito.

Vou tomar banho, patrão vai estar na pastelaria, fica mal ele aperceber-se de cheiro de pedreiro depois da obra quando se aproximar de mim. Patrão cheira bem, tem nariz grande, barba grande. Quando fica nervoso, pega na barba com a mão esquerda, abre os olhos e fala indiano. Insulta em indiano. Eu até já conheço insultos em indiano. Uma vez ele disse-me que a minha mãe era feia. Achei feio, porque sei que a mãe dele é mais feia. E sei que o que ele disse não é verdade, pois ele nem conhece a minha mãe. Mas vou tomar banho, não quero que o patrão mencione o nome de alguém que nunca viu.

Quando abri a porta do quarto que estou a arrendar, senti a rua agitada, o frio a ser espantado pelos raios de sol. Depois de cinco minutos a andar, arrependi-me da camisola que usava. Entrei na pastelaria, peguei no mop e limpei até a minha cara estar espelhada nas tijoleiras. Tirei a camisola, vesti um avental e esperei pelos clientes.

Às 8.00 horas, o patrão chegou, olhou para mim, olhou para o chão, viu a sua barba, olhou para o balcão, mostrou os dentes e continuou a mexer o celular. Ele tem um celular, bem grande, assiste vídeos de indianos e lê textos que parecem cobrinhas enjoadas a correrem.

Os clientes hoje estão a entrar só para perguntar. Um quis saber quais eram as bebidas que vendiam. O patrão pegou a barba com a mão esquerda, abriu os olhos e disse: “Bay não vender álcool!”.

Às 11.00 horas, entrou um miúdo. Tinha uma pasta castanha, parecia de militar, cabelo despenteado, dentes brancos e grandes e olhos sonolentos. Falava baixo, pediu um refresco, um bolinho de 20 meticais e uma tomada para carregar o seu computador. Eu sabia que na pastelaria tinha uma ficha, na mesa dois, mas o patrão estava a me olhar, por isso disse que não tinha. O cliente ficou meio zangado, mas, mesmo assim, sentou-se.

Para ser boa pessoa em frente do patrão, entreguei o que o cliente pediu, com o pano limpei a mesa, onde ele colocou o computador. Reparei que ele olhava para todos com atenção. Escrevia rápido, até parecia que eu estava a pedalar numa subida.

Depois de 40 minutos, ele aproximou-se, entregou-me o dinheiro, o patrão fez sinal para Somali levar o valor e colocar na caixa, já não confiam em mim. Para ser bom, disse ao cliente que era melhor ele ir para a pastelaria do “Jardim dos Madgermans”, porque tinham tomadas para carregar computadores, ele ouviu, mas voltou à mesa, abriu o “laptop” e continuou a escrever. Eu aproximei-me para saber o que ele tanto escrevia, espreitei e vi um título que não percebi bem: “Não há internet para África”.

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Dialogando: A seriedade da DPASAN… - Mouzinho de Albuquerque

UM documento da Direcção Provincial de Agricultura e Segurança Alimentar de Nampula (DPASAN) diz que ela e seus parceiros de cooperação têm vindo, de há alguns anos a esta parte, a levar a cabo eventos relacionados com o lançamento oficial das campanhas agrícolas, que servem para estimular os produtores pelo seu desempenho, no quadro da luta pela erradicação da pobreza.

“Neste contexto, vimos pela presente convidar à V.Excia a fazer cobertura jornalística do lançamento da campanha agrícola 2019/2020, no dia 28 de Outubro corrente, na localidade de Mecuasse, no distrito de Ribáuè”, refere o documento assinado pelo próprio director provincial de Agricultura e Segurança Alimentar de Nampula, Jaime Roberto Chissico.

Entretanto, três dias antes da realização do lançamento da campanha, o chefe do gabinete de comunicação e imagem naquela direcção informou-nos que a partida para Ribáuè, no dia 28 de Outubro, seria exactamente às 5.30h. Naquele dia chegámos àquela direcção à hora combinada. Só que nos deparámos com uma situação um tanto ou quanto surpreendente, relacionada com a falta de viaturas para levar os jornalistas convidados à Ribáuè, a ponto de se fazerem arranjos, abastecendo com combustível algumas viaturas que não são da Direcção Provincial de Agricultura e Segurança Alimentar. Ficámos surpreendidos porque foi pela primeira vez que cobrimos um evento daquela instituição numa viatura que não é sua. Contudo, mesmo com um meio de transporte “estranho” à DPASAN, chegámos a Mecuasse num ambiente muito poeirento. Porque não conhecíamos o local da cerimónia, ficámos “acomodados” num dos alpendres onde seriam feitos os discursos oficiais. É que os jornalistas nem programa das actividades a realizar possuíam. O mais estranho ainda é que o próprio chefe do gabinete de comunicação e imagem também não o tinha. A falta de informação fez com que os jornalistas não fossem à machamba do agricultor Regua Chipangue, por onde começou a cerimónia orientada pelo governador Victor Borges, o que não terá agradado ao chefe dos Serviços Provinciais de Extensão Rural, que chegou a se zangar com eles, que, logo à partida, não tinham culpa pela aparente desorganização da sua direcção. Aliás, essa desorganização fez com que se criasse um ambiente azedo, não só entre o chefe daqueles serviços e o do gabinete de comunicação e imagem, como entre este último e outros membros da DPASAN. Tudo isto concorreu para que o chefe de gabinete de comunicação e imagem fosse demitido imediatamente das suas funções depois do lançamento da campanha.

“Veja só que nem tive programa da cerimónia. Por isso não conhecia o local da recepção do governador. É estranho também que algumas pessoas galardoadas, incluindo alguns jornalistas, pura e simplesmente não tenham sido chamadas para receberem os seus prémios”, comentário do chefe ora demitido.

Se no caso dos jornalistas com a atribuição dos prémios a DPASAN queria evidenciar pela primeira vez a grande contribuição do jornalismo para o desenvolvimento do sector agrícola, ainda numa província como Nampula, em que apesar de ser maior produtora de alimentos com teor nutritivo, os índices de desnutrição crónica continuam altos em crianças dos 0 aos 5 anos de idade, então a falta do anúncio dos contemplados por razões aparentemente de lacunas, desorganização ou insuficiências da sua própria actuação roçou o vilipêndio, injúria, desprezo e desrespeito a eles (jornalistas). A nossa preocupação aqui não é, evidentemente, ficar com os prémios, longe disso. Nunca pedimos distinção com galardão por quem quer que seja. Estamos, sim, preocupados com a aparente falta de seriedade consubstanciada no abuso de algumas instituições, como terá sido neste caso, quando olham à comunicação social.

É nossa percepção que criar uma ideia ilusória de uma direcção de agricultura e segurança alimentar em crescimento ou com sucesso no desempenho das suas tarefas, “atacando” ou secundarizando o papel dos jornalistas, é absolutamente mau, e não queremos acreditar que a DPASAN queira enveredar por esse caminho. O essencial aqui é que se por exemplo queremos distinguir as pessoas neste caso jornalistas, com galardões, como sinal de reconhecimento inequívoco do seu trabalho em prol do desenvolvimento agrícola, então vamos ser sérios.

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Num`Val Pena: Abu Bakr al-Baghdadi - Leonel Abranches - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

 

Manhã da última segunda-feira. O dia nasce tórrido, um calor incomum anuncia o inferno para as próximas horas. Tomava tranquilamente o pequeno-almoço numa casa de pastos algures na baixa da cidade. Meia dúzia de pessoas faziam a sua refeição em conversa amena e quase soturna.

O servente, um rapaz bem-humorado, com feições e perfil de um bailarino indiano, sugere-me uma refeição leve: “Mais velho, tome um chá quente, coma uma torrada simples e ovos mexidos...esse calor djó não está a dar...quando está calor, os ingleses bebem coisas quentes...” e antes mesmo de aceitar a sugestão, ele tratou de ir fazer o pedido.

Pelo televisor espreitava fragmentos do noticiário de uma televisão portuguesa. Já degustava com algum requinte a torrada simples e ovos mexidos quando a televisão interrompeu a emissão para anunciar como “última hora” e em parangonas que um tal de al-Baghdadi havia sido morto por tropas especiais americanas. Uma natural atenção foi destinada à notícia e aguçamos todos os sentidos para perceber o que de facto tinha acontecido. Aliás, depois de Osama Bin Laden, al-Baghdadi era o mais conhecido terrorista ligado ao Estado Islâmico.

Atentamente fiquei a saber que onome verdadeiro de al-Baghdadi é Ibrahim Awwad Ibrahim al-Badri. Nasceu em 1971 na cidade de Samarra, no Iraque, em uma família sunita de classe média baixa. Quando jovem, adorava recitar trechos do Alcorão, e observava as regras do islamismo de forma rigorosa.A notícia corria em todos os canais de televisão.

Bem ao lado, uma mesa acolhia três cidadãos, todos eles com sinais evidentes de islamização de consciência e de religião. Estavam vestidos a preceito, com vestes longas e brancas e lenços com uma corda preta torneando a cabeça. Por baixo usavam apenas uma espécie de pano enrolado pela cintura e falavam bastante alto.

Mais ao fundo da sala dois jovens atentos ao noticiário fizeram um comentário suficientemente audível para todos: “Finalmente apanharam esse pulha terrorista muçulmano...”.

Os três cidadãos viraram quase que em simultâneo com olhares reprovadores e sobretudo ameaçadores. Um deles, com o dedo indicador em riste, investiu sobre os dois rapazes:

“O que você sabe sobre terrorismo rapaz?! Para ti muçulmano já nasce terrorista?! Acha você que os imperialistas americanos são melhores que cada um de nós?! Pobre mente perversa.”

O rapaz, afoito e conversador, resolveu responder: “Não disse isso. O que entendo é que os muçulmanos no geral acreditam que a violência contra os que chamam de ímpios infiéis é aceite e apoiada pelos fundamentos de Maomé. Daí que sejam conhecidos como fundamentalistas, até porque....”- e o rapaz foi violentamente interrompido:

“Aí é que te enganas jovem. Você, como muitas outras pessoas, construíu estereótipos e aplica-os em qualquer situação. Para ti, árabe, muçulmano ou islâmico quer dizer a mesma coisa...nem te deste conta de que estão a falar de um líder islâmico...você traçou preconceitos a partir do que pouco conhece.”

A discussão começou a ganhar contornos alarmantes, sobretudo pelos comentários de cariz religioso e político. Agucei os ouvidos e os sentidos.

“Mas, kota. Poucas são as vezes que ouvi dizer que um cristão se fez explodir em nome de Cristo...” - e olhou para mim como que a querer aprovação e aliança nos argumentos. Encolhi os ombros e não disse nem sim e nem não. Não queria tomar partido na discussão de um tema que pouco ou nada domino.

“Algumas revoluções são necessárias. As mortes, quer de militantes ou de inocentes, são periféricas. Os inocentes são mártires Alá. Um dia vais perceber que os americanos, que te fazem acreditar que são os salvadores deste mundo, que os donos da democracia e que prezam o bem-estar da humanidade, não passam de expansionistas e neo-colonialistas. Um dia perceberás da justiça dos povos islâmicos. Espero que não seja tarde demais...”

Fiquei arrepiado com o discurso fundamentalista em plena baixa da capital. Saí de mansinho e atravessei apressadamente a Avenida 25 de Setembro e embrenhei-me pelo gabinete. Ainda arfando e transpirando abundantemente perguntei ao primeiro colega que encontrei:

“Já ouviste falar de al-Baghdadi?” - A resposta não podia ser mais esclarecedora?

“Aquele terrorista muçulmano?! Encurralaram o gajo ontem e fez-se explodir com mais duas crianças, esses árabes são suicidas pra caramba tsc.....”

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Acento tónico: Levem o Nhongo a “curtir” Chitsondzo - Júlio Manjate - (Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

NUMA sexta-feira, decidi fechar o dia de forma relaxada. Sentei com amigos numa casa de pasto, algures na Matola, onde o músico Roberto Chitsondzo estava a actuar, acompanhado da sua banda: O Fadir, na guitarra, o Nando, no baixo e o Sima, na bateria. Gente de respeito!

Na verdade não são poucas as vezes em que nos apetece estar num lugar daqueles, e acabamos frustrados de tanto barulho e desafino. Há mesmo situações em que mais vale deixar que seja a vozearia da malta dos copos a fazer o ambiente, do que permitir que algum DJ ou uma banda qualquer cobre dinheiro para promover a impaciência e indispor os clientes. De facto, com tanta gente a “desenrascar a vida”, não surpreende que, de repente, nos esbaremos com um ambiente igual…         

Mas naquele dia a coisa era bem diferente. A cada tema que executava, o grupo ia denotando dotes acima da média e uma capacidade de adequação dos versos ao ambiente, que entretanto ia aquecendo à medida que os clientes “despachavam” rodadas e se inspiravam para inventar coros e novos temas para conversa…

Matreiro, o bom do Roberto ia “scanando” a audiência, procurando acompanhar a “loucura” que, gradualmente, ia subindo de tom… Era muita marrabenta para uma só noite!

A coisa estava tão animada que, a dado momento, só não me levantei para quebrar o esqueleto, com receio de ser fotografado ou filmado por algum presente (mal intencionado), para depois postar nas redes sociais com legendas a despropósito. Infelizmente, isso acontece entre nós!

Mas confesso que fui dançando ali, sentado, batendo com os pés no chão, por debaixo da mesa, menos à vontade que os meus companheiros que, aparentemente, não ligavam muita importância a alguma eventual presença de algum “desmancha-prazeres”…

Alegres, faziam coros desafinados (risos) e por vezes investiam em acrobáticos rodopios para celebrar a marrabenta que era destilada a partir do pequeno estrado. A dada altura, já ninguém se sentia retraído por puxar pelo seu telefone para registar um vídeo ou um instantâneo fotográfico.

Eu não podia entrar naquela vibração toda. Estava preso aos meus protocolos de consciência e sei lá do que mais... Numa mesa vizinha, uma mulher que parecia sofrer da mesma patologia que eu, perdeu o jeito e levantou-se para balançar o traseiro, com bastante sensualidade, sobretudo quando chegou a vez do “mamana a yo sala yeche”  ou do “Mussakazi“, aquela em que Roberto convida os fãs a viajar num corpo escondido por detrás de uma blusa… Aquilo, só visto! 

Aos poucos, percebi que o calor que me percorria por dentro era normal naquele ambiente. Éramos muitos a vibrar, cada um à sua maneira, até mesmo aquele idoso que parecia velho demais para chocalhar seus ossos.

De repente, pensei cá para mim: o que faria um tipo como o Nhongo, se alguém o levasse a “curtir” um ambiente daqueles?  Sim, esse mesmo, o Mariano Nhongo. Ele ou qualquer outro desses que têm o prazer de ficar emboscados nas estradas do país, para disparar contra homens como eles! Fiquei imaginando se o Nhongo seria capaz de ficar indiferente perante aqueles sons contagiantes, mesmo sem perceber o que diz o poema.

Aliás, música é assim mesmo. Muitas vezes não entendemos nada do que diz a letra, mas dançamos o ritmo feito loucos, mercê da sua magia que nos envolve e nos faz lembrar que somos humanos, que temos sensibilidade, que somos capazes de amar, mesmo que já não acreditemos…

Quando sai dali, jurei que pediria a quem puder, para ligar ao Nhongo e convidá-lo a viver uma daquelas cavaqueiras, em ambiente livre e descontraído, sem armas nem desconfianças, e talvez até com as contas pagas…

Queria ver se depois disso ele ainda optaria por ir ficar emboscado, ali em Zipinga ou noutro ponto qualquer deste país, para disparar indiscriminadamente a sua AKM contra pessoas desconhecidas, destilando um ódio que não tem razão de ser, num mundo com tanta alegria e amor para desfrutar.

Alguém me ajuda a organizar esse frete?

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